Anti-dinheirismo

“Seja você mesmo”. Mas e se não tenho tempo para pensar em quem sou?

Juntar dinheiro suficiente para conseguir autonomia financeira e viver como se bem entende não tem segredo: ganhe o máximo que puder e gaste o mínimo que puder. A fórmula pode até ser um pouco mais detalhada: mude para um apartamento menor e mais distante, faça compras no atacado… Tudo teoricamente simples, assim como as fórmulas mágicas que garantem o emagrecimento: coma duas cenouras por dia e perca dez quilos por semana.

Para quem busca emagrecer, encontrar uma boa dieta é o mais simples dos problemas. Analogamente, métodos para se gastar menos ou dicas de como se investir abundam na internet. O difícil é saber por que não se consegue comer menos. Assim como é pouco trivial entender porque objetos se tornam de desejo – e nos fazem gastar tanto. A racionalidade dos métodos genéricos fatalmente esbarrará na irracionalidade subjetiva de cada um que os tentar implantar.

A minha autonomia financeira não começou pelos números. Na verdade, mais provável que eles tenham me atrapalhado no início. Senão vejamos. “Quanto dinheiro preciso juntar para parar de trabalhar?” é um ponto de partida tentador: quantificar o problema para persegui-lo de maneira mensurável. No entanto, pode ser apenas uma maneira astuta de se acobertar o medo de dar um grande passo.

Minha autonomia financeira não começou pelos números. Na verdade, mais provável que eles tenham me atrapalhado no início.

Sim, porque será preciso um valor proibitivamente alto para manter, sem um salário fixo, um padrão de gastos estabelecido numa situação da qual se quer sair, essa situação inicial em que o tempo é escasso. Em que os prazeres precisam ser concentrados: jantares caros e vinhos raros. Hotéis de luxo. Tudo aquilo que o dinheiro puder comprar no curto intervalo em que estamos de folga. Não há tempo para se gastar pensando no que realmente importa. Difícil não é economizar. Difícil é sair da gaiola de ouro e se responsabilizar por seu próprio voo. Mais fácil constatar a impossibilidade de se acumular o dinheiro que comprará a liberdade, e questionar os valores financeiros antes de questionar os valores morais.

Quando iniciei esse processo, também me preocupava muito com números, provavelmente porque não tinha ideia de como as coisas iriam mudar. A começar pelo plano a ser posto em prática logo após minha saída do mercado financeiro, que acabou por ser um fiasco. Um tapa na cara da minha mente controladora, que me mostrou que um bom planejamento não é tudo. Afinal, não saíra de uma rotina pesada para entrar em outra. E sim para me deixar deparar, por exemplo, com o bem que me faria ter tempo para pensar em todas aquelas questões pessoais que, por força das obrigações, não pudera antes analisar. Se você tem 8 reuniões para fazer num dia, esquece aquela dúvida que te apareceu de manhã, vai a luta e à noite compra algo legal porque o dia precisa ter valido a pena. E se a ansiedade bater, rivotril é fácil de encontrar.

Difícil não é economizar. Difícil é sair da gaiola de ouro e se responsabilizar por seu próprio voo. Mais fácil constatar a impossibilidade de se acumular o dinheiro que comprará a liberdade, e questionar os valores financeiros antes de questionar os valores morais.

Poder acordar sem despertador, poder prolongar uma viagem, estar disponível para os amigos, redescobrir o prazer de cozinhar. Ler, ler muito e ver o mundo por novos ângulos. Literalmente. Muito bom e não custa nada. A vida ficou mais simples, e meu consumo caiu drasticamente, sem grandes esforços. O dinheiro que achava que ia durar um ano vai durar dois. E isso resultando de escolhas que tem é me aproximado do que faz sentido para mim. Tem sido, de certa forma, um esforço negativo. Claro que não sem obstáculos, que venho compartilhando e continuarei a compartilhar. Obstáculos ou resistências? Razões para voltar atrás ou novas oportunidades de reflexão? Que continuem vindo. O steady state não existe.


Espero que a resposta aos tristes ataques em Barcelona seja mais liberdade às pessoas. A Europa já passou por momentos piores que o atual, e esse princípio sempre provou ser o melhor caminho.

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