Cinco passos para a liberdade

Liberdade sempre me pareceu um valor fundamental. Não sei se o valor fundamental, claro. Conforto também é bom, mas parece que antagoniza. Cada vez que me responsabilizo por uma decisão tomada, abro mão da comodidade que teria se pudesse culpar outrem por qualquer coisa que viesse a dar errado (um alívio que, não obstante, não me impediria de vivenciar as más consequências do que quer que tenha dado errado).

A autonomia financeira é uma liberdade que traz conforto. Ter dinheiro para tentar o que quiser, sem o medo de dar errado. Liberdade que se preza permite até não mudar nada. Poder escolher, inclusive, continuar a trabalhar. Mas porque se quer, e não porque precisa. É bem melhor.

Listo aqui cinco decisões tomadas ao longo da vida que me garantiram uma liberdade da qual me orgulho:

1. Ter persistido na psicanálise. É perder o medo de mudar. A neurose é tacanha: só permite caminhar numa direção. Como numa sala de espelhos, faz todos os caminhos parecerem iguais. Aí, se não estiver bom onde se está, move-se na única direção que se é capaz de compreender. E fica batendo a cabeça, porque é melhor do que ficar parado.

Porque a ansiedade (pelo menos a minha) impulsiona a fazer mais quando não sabe o que fazer. Fazer qualquer coisa sempre parece melhor do que não fazer nada, sussurra a ansiedade. É música para ouvidos corporativos. Te oferecem uma carreira, como se nada mais fizesse sentido. E nela se corre, sem saber para onde.

Quem tira os espelhos é você mesmo. Mas precisa de alguém para dizer que tem um espelho. Projeções. Quanto tempo se demora para percebê-las?

Transformar toda essa capacidade de fazer mais em confiança de que seria capaz de fazer o que quisesse, inclusive tomar minhas próprias decisões. Basta ver tudo o que eu já tinha que fazer. E fazia. É um investimento: perder as referências agora para melhor se orientar depois.

2. Ter mantido em dia o carnê da liberdade. Todo esse processo psicanalítico leva tempo. Mas se ele começou, é porque tinha alguma coisa errada. Se tinha alguma coisa errada, é porque tinha que mudar. As coisas provavelmente não poderiam ser para sempre do mesmo jeito. Em outras palavras, aquele salário garantido tinha um custo que uma hora não poderia mais pagar.

Mas enquanto não se encontra outro caminho, não seria melhor extrair o máximo do curso atual? É muito bom experimentar as coisas que o dinheiro pode comprar. Sem dúvida, em se tratando de consumo, mais é sempre melhor do que menos. Mas o prazer do consumo não elimina o mal-estar de se manter numa posição que só se justifica pelo dinheiro. Ele no máximo o compensa. Um prisioneiro pode cobrir sua cama com lençóis de algodão egípcio, folhear a torneira a ouro e alimentar-se de caviar. Mas ele ainda estará preso.

A maximização imediata dos deleites aliena a liberdade. Esse comportamento vai demandar um estilo de vida que demandará sua manutenção. Fica difícil economizar para ser livre. E liberdade sempre me pareceu um valor fundamental.

É tudo uma questão de perspectiva. E de escolhas. Poupar pode ser visto tanto como “abrir mão do prazer imediato” como “pagar prestação da liberdade futura”. E, convenhamos, o Brasil, com todos os seus problemas, ou por conta de todos os seus problemas, ainda é um dos poucos países que remuneram o esforço de poupança. Vale a pena.

3. Ter desenvolvido o hábito da leitura. E se eu tivesse me viciado em jogar polo? Talvez tivesse me tornado dependente de um trabalho de alta produtividade. Se tivesse me apaixonado por jogar polo, o trabalho de alta produtividade talvez tivesse mais sentido. Mas eu gosto de ler, o que é muito barato, porém requer bastante tempo. Livros bons precisam ser lidos pelo menos duas vezes. Só quando se sabe o que vai acontecer lá na frente se entende porque certa coisa aconteceu antes. Muitas vezes, precisa ler sobre o livro. É quando fica da leitura a sensação de que mais de uma história foi contada ao mesmo tempo, mas só se captou uma delas. Só com tempo pude realmente desfrutar da leitura.

4. Desapego. O apartamento fora feito sob medida para as exigências da antiga vida corporativa. Findas tais exigências, o imóvel virou fonte de renda por meio de alugueis de curta temporada. E, com o equivalente ao que pagava de condomínio, alugo um apartamento que, é verdade, tem apenas um terço do tamanho daquele onde morava. Mas fica ao pé de uma montanha, a poucos metros de trilhas pelo campo. Árvores por todos os lados. E o crepúsculo é cor-de-rosa. Como bônus, fica a cinco minutos a pé de um clube no qual, por cerca de 50 reais por mês, tenho acesso a uma piscina. Dez minutos da praia de bicicleta. Numa cidade a duas horas de vôo das maiores metrópoles culturais do mundo ocidental.

5. Novos paradigmas. Ainda vou a restaurantes. Mas comer fora hoje para mim está mais associado a levar uns sanduíches, uns figos e um vinho para uma trilha que termina no mar. Ou uma salada de quinoa para comer na praia. Comer fora.

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