Conforto não deveria ser bom?

Queria sair da zona de conforto para ver se a mágica acontecia, indo de um extremo ao outro. Esse pêndulo me deixou zonzo.

Já tem bem uns 15 anos que frequento academia. Musculação mesmo, que eu posso fazer no meu horário e no meu ritmo. Mas também sem muita orientação. Lá por 2009, comecei a ter dores nos punhos e, depois de passar por uma sequencia de médicos sem obter um bom diagnóstico, cheguei a um ortopedista que me foi bem direto: seu treino está todo desajustado. Orientado pelos resultados visíveis, não exercitava os músculos necessários e acabava sobrecarregando outros. Daí as lesões, e o encaminhamento ao pilates.

Em vez daquela força que acreditava ser o correto na musculação, na prática da técnica alemã a ênfase estava na consciência corporal. Aprendi, por exemplo, que a coluna vertebral devia estar às vezes em “imprint” (reta, como se totalmente encostando numa parede), e às vezes, na posição neutra – aquela em que naturalmente estaria caso minha postura fosse perfeita. Um desafio. Forçar tudo para um lado ou para outro, tudo bem. Agora, achar aquele tom de cinza em que se mantém o arqueamento da coluna, nem tanto para lá nem tanto para cá, era algo novo. Demorou um tanto até conseguir ficar confortável com o meio, mesmo já sabendo que lá supostamente encontraria a virtude. O que não chega a surpreender, dado o modo de vida em que me encontrava.

Montanha-russa é legal, mas não como moradia.

Uma organização de mercado quer levar seus colaboradores a gerar o maior valor possível. Uma maneira não muito sagaz de se fazer isso é induzi-los a trabalhar à exaustão. Melhor ainda se via a obtenção contínua de resultados facilmente mensuráveis. Maximizar o resultado por unidade (infinitesimal) de tempo ao invés de buscar o melhor resultado ao longo do tempo. Resultados medíocres, porém observáveis e constantes, seriam melhores do que apoteóticas porém irregulares conquistas.

Essa miopia de curto prazo muitas vezes é tida como imposição do princípio de sobrevivência vigente numa impiedosa economia capitalista. Mas é apenas uma miopia de curto prazo. O verdadeiro capitalista sabe que precisa inovar e, portanto, reter os tais funcionários criativos. Mas quem busca no trabalho a satisfação intelectual não vai encontrá-la se tiver que se preocupar com o resultado visível de suas ações a cada instante. Ou mesmo se apenas tiver que parecer ocupado de maneira contumaz.

Ou se produz o tempo todo, ou se é visto como se não produzisse nada. Por mais que hoje pareça senso comum a ideia de que o empreendedor de sucesso é aquele que abre espaço para o erro, a busca por resultados ininterruptos ainda está, na prática, inculcada nos mais diversos comportamentos. Eu, que já tinha uma certa predisposição a me sentir culpado pelo ócio, virei presa fácil. Bastava ver como a lógica do “work hard, play hard” ainda tinha apelo. Ou como ainda queria maximizar o número de pontos turísticos visitados numa viagem, ou o número de livros lidos num ano. Metas para o descanso. Não existe o neutro.

Extremos me causaram lesões. Quando me deparei com estoicismo pela primeira vez, achei uma roubada. Por que me veio como uma história de desviar-se de fortes emoções, positivas ou negativas. Isso era limitar os potenciais prazeres da vida. No entanto, numa frenética oscilação entre extremos, passa-se muito rápido pelas sutilezas do meio. Melhor ser estóico do que ficar tentando mover mundos e fundos para no futuro não repetir remorsos do passado.

Montanha-russa é legal, mas não como moradia. E se conforto não fosse bom, Adão e Eva teriam ido embora antes de serem expulsos do Éden (não foi exatamente “mágica” que encontraram lá fora). A zona de conforto não é digna desse nome se delimitada por medos. Tem algo mais desconfortável que ansiedade? Ficar tentando fazer coisas só para mostrar que consegue… Mostrar que não está confortavelmente parado. Se estivesse confortável mesmo, nem pensaria em mudar. Queria apenas pular para fora do desconforto que tinha comigo.

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