Curtas

“Penso, logo existo.”

Quem dera fosse assim tão simples.

*

Tem dias que eu vejo uma pessoa passando na rua e o coração dá um nó.

Não por qualquer característica que tenha, por sua pobreza ou riqueza. Ela só está passando, face de quem tem milhões de pensamentos girando.

Talvez ela seja bem feliz, e equilibre bem os pratos que lhe foram alocados nessa sua vida. Mas o peito aperta porque de qualquer forma ela vai cedo ou tarde encarar um vazio. E talvez ajude saber que a angústia em mais alguém também se aloja. Ainda bem que eu sei que tem horas que ela também está alegre.

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E tem o dia das coisas poéticas. É aquele em que as formas se encaixam. Nelas mesmas. Tudo está no lugar certo. Harmonia. Mesmo que tudo esteja do jeito que sempre esteve. A poesia está em quem escreve ou em quem lê?

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O restaurante é fino.

Ornamentação impecável.

Fala-se baixo.

Sorriem com discrição.

Receitas contemporâneas.

Fusion.

E então se satisfaz a mais fundamental das necessidades.

História da vida em um instante.

*

Encontro num café. As pessoas falam. E se falam. Sobre o que, não importa. Porque ao final, todos vão se sentir abraçados.

*

Às vezes é bom ter um caminho a seguir. Principalmente se ele for o teu destino.

*

Porém, talvez a maior prova de que a evolução tenha ocorrido a partir de mutações inteiramente ao acaso seja o fato de não termos a menor ideia de porque existimos.

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Fazer tudo o que podemos já é coisa demais. Pensa em quanto pode um ser humano.

Mas aí nos propõem fazer além do que podemos.

“Superar nossos limites.”

E depois querem falar que devemos nos aceitar como somos? Ser quem somos?

É de enlouquecer.

*

Resolver as coisas. Até o fim. Fazer análise.

Aquela coisa de refletir sobre a ansiedade, revirar as memórias para entender de onde vem. Funciona. Pelo menos funciona para mim. Mas nem sempre. Porque tem limite. Às vezes o desconforto vem. Já é bastante entender que a sensação tem cara de culpa. Bônus é perceber que é totalmente despropositada, o saber de não ter feito nada errado.

Isso já deveria ser suficiente. Mas quero escarafunchar… Tomar as rédeas do pensamento. Controlar!

Às vezes é só uma dor de barriga.

*

Lembro aquela vez que fui a Caraíva para um feriado. Quatro dias de descanso no meio daquela rotina insana.

Por razões alheias à minha vontade, acabei indo sozinho.

Choveu quase o tempo todo.

Eu queria gostar da minha companhia. Já gostava um pouco.

Mas chovia.

A pousada era estonteante. De frente para o mar.

Mas o melhor foi quando consegui desistir de me contentar. Tem limite. Tava foda.

Muito interessante foi ler “Kafka à Beira-Mar” naquela viagem.

Alguém deseja a tristeza, o descontentamento? Essa inestimável fonte de crescimento? Crescer para que?

Só se for para ser feliz.

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