Desapego

É preciso experimentar das pequenas tristezas. De braços abertos. Senão, quando ela vem por inteiro, assusta. É bom ser positivo. Tentar achar caminhos. Fazer experimentos mentais. Porém, tem hora que é melhor ficar parado, e esperar o vento mudar de direção. Mas e andar para trás? Também vale a pena? Se num beco sem saída, é a única opção. E o que seria da vida sem a exploração dos becos, escadarias e passagens que não sabemos onde vão dar?

Talvez o difícil do desapego surja quando se tem que escolher entre manter uma rede de segurança (e ficar parado) ou seguir o caminho. Seguir ainda que a possibilidade de queda seja real.

Se não formos capazes de aceitar a tristeza, nunca estaremos aptos a deixar nada para trás. Talvez seja isso, o tal desapego. Ou, pelo menos, mais uma de suas camadas.

Porque depois de um tempo, fica até fácil abrir mão dos excessos. Dispensar aquilo que não queríamos realmente, a não ser como compensação pelo que fazíamos sem tampouco desejar. Os restaurantes finos, que só serviam para justificar o trabalho insatisfatório, esses vão com facilidade. As roupas caras, que tentam exaltar a verdadeira personalidade quando ela só tem um tempinho limitado para aparecer. Essas logo ficam inúteis quando se aumenta o tempo disponível para ser. Ser quem sou para mim mesmo. Aí o que visto fica menos importante. Talvez fique menos importante porque menos se precisa mostrar. Porque é a essência que passa a transparecer.

Mas tudo isso é fácil. É deixar para trás o excesso de conforto que se fazia necessário apenas porque havia excesso de desconforto. É largar as proteções contra riscos que deixaram de existir. Se o receio é perder todos esses luxos (que apenas deixam opaco o medo da real mudança) então esse receio não deve existir. Ele passa logo.

O medo de ficar no limbo também deixa de ser assustador rapidamente. Encontrar o que fazer quando se tem mais tempo livre não deveria ser problema. Tem muita coisa boa para se fazer gastando pouco. Eu não tenho tempo de fazer metade do que gostaria. Tem um museu aqui perto de casa que ainda não consegui conhecer. E os livros? Para cada um que termino, descubro três que gostaria de ler.

A perda da identidade profissional também é algo para se superar sem demora. De economista sênior do mercado financeiro passei logo a ser a pessoa que teve coragem de experimentar. Se a perda de um rótulo assustar, outro se arranja prontamente. Mas o rótulo também vai deixar de ser fundamental em pouco tempo. Enriquecer o espírito, fazer o que se gosta, perceber que consegue fazer diferente… tudo isso vale mais que um título que serve para pouco mais do que se apresentar a quem não se quer de fato conhecer. Que tem a função de resumir quem não tem tempo de se explicar a quem não está disponível para entender.

Deixar de ser para tornar a ser.

O chamamento do “mercado” é forte. A vontade de ganhar dinheiro afasta da vocação. Desapego é seguir a vocação? Queremos ser autênticos. Isso é uma conquista: trabalho duro, em todos os sentidos, é crucial. Conquistam-se as condições para seguir a jornada de individuação. Uma rede de segurança monetária.

Talvez o difícil do desapego surja quando se tem que escolher entre manter essa rede de segurança (e ficar parado) ou seguir o caminho. Seguir ainda que em algum momento a rede não mais proteja. E ainda que a possibilidade de queda seja real.

Isso é difícil.

Principalmente para quem conseguiu conquistar a tal rede, e sabe como isso foi penoso. E agora precisa escolher entre se jogar ou não. Custa lembrar que a rede de segurança nunca foi um fim em si.

Um pouco mais complicado é dar o próximo passo. Começar de novo. Vai dar para recomeçar outra vez? Não sei nem se a gramática permite recomeçar de novo. O que dizer da vida, tão mais complexa e um tanto mais curta que a gramática.

A tristeza vem do medo? Ou da certeza de que agora sim as coisas serão diferentes? Tristeza do desapego.

Bom seria se pudéssemos ser como os guardiões da República de Platão, e termos sido educados com a música e a ginástica na medida certa, para podermos seguir sem dúvidas os caminhos para nós determinados.

Mas não somos.

Que bom. Porque o admirável mundo novo é distopia. E nos mais de dois mil anos entre Platão e Huxley, ninguém conseguiu pensar numa forma de acabar com a incerteza humana. Sem ter que acabar com os humanos. Ou com o que é humano.

Se não teve alguma tristeza, não mudou de fato. Se não era para mudar de fato, valeria a pena todo o esforço? Mudar de fato. Mudar de fado. Que venha o destino. Ele existe, mesmo que se forme apenas instante a instante.

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2 thoughts on “Desapego

  • Bem legal o texto, acredito que poderia ter feito dois temas o desapego e a vocação . Sobre vocação acredito que o livro a guerra da arte de Steven Presfield pode ser usado como uma inspiração. Na questão desapego, gosto de olhá-lo como algo relacionado às partes superfulas da vida como vc citou.
    A mudança de uma carreira ou algo mais forte vem com um somatório de fatores… Mas o importante para realizar o desapego é saber olhar para o seu futuro e visualizar algo melhor do que se tem hoje.

    • Oi Braulio!
      Muito obrigado!
      Eu normalmente escrevo sobre coisas pelas quais estou passando, e, portanto, pensando muito. Agora é uma fase de desapego para poder fazer as próximas escolhas. Mas espero em breve saber mais sobre vocação, rs. Vou dar uma olhada nesse livro que você indicou. Boas festas!

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