Diário de Caraíva – Casa Simples

10/01/2018 – Casa Simples

A casa é uma casa simples. Daquelas que têm bem só o básico mesmo. Sem forro no telhado, piso de cimento pintado. De paredes com cores esmaecidas. Cada uma de uma cor diferente, porém todas elas esmaecidas de uma maneira impressionantemente uniforme.

É preciso ficar sozinho para se encontrar, mas o outro é necessário para que você se veja, o tal espelho. Nada fácil essa individuação pós-moderna.

Mas tem dois quartos, cozinha, sala, banheiro e uma bela varanda. Arquitetos hypados diriam que essa divisão hierárquica-individualista dos cômodos não mais deveria se aplicar num mundo que clama por interações reais. No entanto, agora que tenho ficado mais tempo em casa, cozinhando e cuidando das roupas, entendo aquilo que ouvia clientes de arquitetos menos hypados dizerem das tais “casas cenários”. Cozinha integrada à sala, loft… essas coisas funcionam bem quando se fica fora a maior parte do tempo. E sozinho.

Nessa vida em que cada um vai ser o que é, mesmo quando não tem ideia do que vai ser, cômodos podem ser úteis. Não é à toa esse nome. É difícil ser quem se é quando em contato com outra ou outras pessoas o tempo todo.

É preciso ficar sozinho para se encontrar, mas o outro é necessário para que você se veja, o tal espelho. Nada fácil essa individuação pós-moderna. Às vezes dá saudade atávica de um mito ordenador da vida. Ser quem se é quando se nascia numa aldeia indígena intocada devia ser bem mais fácil. Você tinha umas quatro opções de vida, se muito, e a sua capacidade humana de notar sutilezas você guardava para observar a quantidade de tons verdes na mata. Ou os diferentes formatos das marolas.

Porém, tendo nascido nesse mundo já sem referenciais, vale tentar passar um tempo na vila indígena, ainda que ela também já não tenha mais mitos – mas onde ainda parece haver uma certa ordem social em que cada um encontra seu lugar (por enquanto me contento com a visão idílica; uma hora vou pensar nas dificuldades de saúde pública ou no que tem mudado com tanto turista).

Por ora preciso arrumar minha casa, que é uma casa simples. Na ausência de mito ordenador da vida, mantenho a varanda limpa. Ainda que saiba que em poucas horas o vento trará areia de volta. Na grande ordem das coisas, minha varanda limpa conta mais ou menos do que uma previsão correta do próximo corte da taxa Selic? Quem no mercado financeiro se lembra das projeções feitas na semana anterior?

Iara, minha senhoria, veio aqui hoje deixar colchas para cobrirmos os sofás e conservá-los limpos. Ela disse que está muito feliz em nos alugar a casa porque a mantemos sempre organizada.

13/01/208 – As Baterias que Carregamos na Vida

Vim a Caraíva depois de já um certo tempo de sabático. Vim a Caraíva para encerrar esse sabático?

A decisão de terminar esse período parece estar vindo mais de considerações internas que de restrições ou imposições externas. Uma vontade de voltar a produzir? De realizar? De fazer. Fazer o quê? Para quem?

É claro que você pode se mover e realizar em Caraíva. Fazer acontecer. Mas basta andar um pouco sobre suas fofas (literalmente) ruas de areia para notar que o impulso natural é de pausa, não movimento.

E não haveria aí uma certa contradição? Sentir que o fim do sabático se aproxima e vir a Caraíva. Seria meio incoerente na medida em que, assim que a ela chegamos, essa bucólica vila joga na nossa cara o nada-fazer. A vida pelo que ela é. Buscar em seus habitantes, cuja existência certamente precede a essência, a inspiração para o próximo passo? Se ao menos tivesse essa (ou qualquer outra) certeza sobre o existir… É claro que você pode se mover e realizar em Caraíva. Fazer acontecer. Mas basta andar um pouco sobre suas fofas (literalmente) ruas de areia para notar que o impulso natural é de pausa, não movimento. Mas não seria justamente na pausa que surgem as boas ideias?

Será possível desfrutar da estacionariedade externa quando as considerações internas parecem pedir ação?

Fala-se em recarregar as baterias. Baterias no plural porque certamente são mais de uma que carregamos. Trabalhando pesado 12 horas por dia, é a do cansaço físico que se exaure primeiro. Aí se vai à Bahia. Para não fazer nada. A não ser deixar essa bateria recarregar.

Mas por quanto tempo conseguimos ficar apenas sorrindo e dizendo “estou na Bahia”, sentados e olhando o mar? Tomar uma caipirinha. Ouvir música. Fumar um cigarro? Fazer o possível para não fazer nada.

Essa minha bateria do descanso está cheia. E a do ter uma base fixa? A que se gasta quando se fica muito tempo de lá pra cá, de lá pra lá. Que se recarrega quando num lar com aquelas coisinhas que você vai acumulando ao longo da vida. Os pequenos confortos que uma casa de pescador na Bahia não tem.

Mas tem vento no rosto com barulho do mar e das folhas dos coqueiros balançando. E pé na areia o tempo todo. E tem ausência de gente. E calma.

Talvez calma seja o que recarrega a bateria do próximo plano. Aquela que servirá para, por sua vez, carregar a bateria das realizações. Que a calma venha então para ajudar a escolher que plano será esse.

Que se estabeleça então, uma pequena e calma rotina em Caraíva. Tempo para isso não há de faltar. Tempo suficiente inclusive para que essa rotina se forme sozinha. E que, assim, a estacionariedade externa organize as considerações internas. Oxalá.

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