Diversidade

A diversidade que se aceita – que se tenta aceitar – é do externo. É do visível. Ainda. Que grupos, minorias, ganhem força, é algo só a celebrar. Abrem as portas para que, num momento a se esperar, se admitam as singularidades a constituir cada conjunto. Para que a unicidade de cada mente a vagar por aí seja o que se respeita.

Haverá esse dia em que trabalhadores, além de não precisarem esconder seus gêneros nem se envergonharem de seus traços, poderão assumir que são as Robertas, Marias, Eugênios e Franciscos que só eles são?

Há as firmas: pessoas que se organizam para produzir valor que não conseguiriam separadamente. Foi numa delas que, um dia, muitos dias antes de hoje, alguém descobriu que não bastava fazer seus integrantes executarem as tarefas de uma determinada maneira. Era preciso levar esses colaboradores a se sentirem parte de “algo maior”. Produziriam mais ainda, conjecturaram.

Funcionários poderiam ser treinados para pensar de uma determinada maneira, ainda que tivessem sido criados sob diferentes valores. Como se uma empresa, uma organização, pudesse ter seu mito fundador. Algo que às vezes chamam de missão, de visão. Valores.

Indivíduos de diferentes orientações seriam então organizados. Mas quão diferentes? Talvez tenha sido preciso que se esgotasse o bloco dos predominantes – homogêneo no que se vê – para atiçar a criatividade dos que comandavam. Algum cálculo econômico, num dia desses do passado, deve ter sido crucial para mostrar que os ganhos seriam maiores numa sociedade em que cidadãos de diferentes fenótipos, gêneros, crenças também pudessem ser instruídas a pensar naquele mesmo arcabouço. Qualquer um poderia ter suas arestas aparadas e se ajustar. E assim disponibilizar suas habilidades para organizações que, da maneira que pudessem, buscariam potencializá-las. Equidade? Basta que os diferentes pensem semelhante. Adequados aos tais valores, daquela missão. Ou visão.

Organizações que se tornam menos homogêneas porém mais lucrativas precisam apenas de “mitos organizacionais” mais fortes. Para manter a “coesão”. E para que os menos iguais aos que se diziam originariamente iguais também se sentissem iguais. Ou parecidos, pelo menos.

Capital amorfo – importa-se em maximizar sua reprodução. Tende a acolher os talentos que impulsionem os resultados, mais do que favorecer a fulano ou a sicrano. Fulanos e sicranos querem ser independentes: buscam trabalhar ao máximo de sua produtividade e para isso precisam do capital. Não sai daí uma boa combinação?

Descoberta revolucionária do último século que se amplia no atual milênio. O capitalismo se mostra gradualmente inclusivo. Porque admitir entes diversos aumenta as chances de participação de funcionários com maior potencial produtivo. Ganham os capitalistas, ganham os trabalhadores. Desde que se adéquem ao organizado. Custo não negligenciável, é certo. Mas que grande esse passo, em que mais gente pode ser integrada, mesmo que ainda tenham que ser aparados.

Mais diferenças aceitas, menos é necessário desbastar. E até onde isso pode chegar? Parece que mais e mais “categorias” vão sendo acolhidas. Alcançará o reconhecimento de que somos, cada um de nós, humanos, “categorias”, “classes” ou “minorias” em si – independentemente do que se vê e que nos agrupa?

Será que num futuro a diversidade em seu limite terá valor? Quando se enxergará cada indivíduo como o ser unicamente diverso que é. É plausível prever que cada um de nós vá em breve se sentir livre para expressar o que realmente pensa? Que as organizações estarão prontas para verem seus valores surgirem organicamente, a partir dos caráteres que a formam? E os sujeitos, estão todos eles preparados para assumir suas idiossincrasias?

Haverá esse dia em que trabalhadores, além de não precisarem esconder seus gêneros nem se envergonharem de seus traços, poderão assumir que são as Robertas, Marias, Eugênios e Franciscos que só eles são?

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