Escolhas

Aceitamos que o despertador toque bem antes do que deveria. Engasgamos com o desjejum, mas o engolimos, porque as coisas são assim mesmo. Apressamo-nos para chegar a um lugar de onde não veremos a hora de ir embora. Convivemos com quem já não nos ocorre esperar um bem dizer.

Que dificuldade de acolher o incerto é essa, que converte em avalanche o desfrute em escolher? Medo que soterra o obliterado prazer de não precisar ser eficaz. Ou carismático. Onde é que se perdeu a lembrança do gozo em prescindir? Frio na barriga, aperto no peito: minha barriga, meu peito. Eu.

Porque o tempo é linear? Só consigo pensar uma coisa por vez. Então porque amiúde tantos pensamentos não me permitem focar?

A ansiedade tem memória curta. E nos aprisiona em rotinas mesquinhas. Como se essa fosse mesmo a vida.

Vida que se delega, porque chegamos a acreditar que há alguém lá fora que pode ser melhor do que nós mesmos para tomar nossas decisões. E nos propomos a resistir a opressão de estruturas, de conveniências prometidas – ao menos em nossas ilusões – porque não queremos nos responsabilizar pelo que viermos a querer. Traz conforto? Se não sei bem nem o que eu faria, imagina adivinhar como agiria o outro? “Fazer tudo sempre igual”. Então por que fazer de novo? Acabamos com o agora em nome do para sempre.

Precisamos agir, acreditamos. Mudar as coisas. Como se agir não pudesse ser o aceitar as coisas. Por que não somente curtir a vagareza que sucede uma noite pouco dormida? O olhar que se fixa num detalhe, e lá se perde, porque os pensamentos estão naquele momento apenas deslizando, guiados por nada além de seus pesos. Escorrendo em estalactite que se forma justamente porque nada se faz. Ou pingando, somente, sabe-se lá onde, para passar a fazer parte de quem sabe o quê. Não cabe a mim decidir. Estou lento e não quero mandar em nada.

*

Quero sair. Quero dar uma volta. Não quero tomar um café nem ir ao cinema. Não sei onde quero ir. Quero só sair. Quero aceitar que quero, e deleitar-me com minha capacidade de asilar o que anseio, ainda que não saiba o que seja. Porque não é nem muito. É só dar uma volta.

O que tem lá fora, a essa hora da noite, são só ruas vazias. Não mais que caminhos. Ires a nenhum lugar. São faltas de propósito, ou são propósitos em si, se o que se quer é nada além de ir. Ou mesmo ficar parado.

Pilha de livros começados. Pilha de curiosidades sobrepostas. Trechos grifados, aos que nunca se volta. Marcaram um momento singular. Algo fez sentido, e a esse algo quereria voltar. Há de ter um fim ali. Mas esse fim já terminou. Terminou quando o trecho foi grifado. Quando ali se volta, é outro começo. Sempre começa no fim. Porque o tempo, tão-só o imaginamos.

Eu só quero dar uma volta.

Teleologia, sem se saber com que fim. Ouvir o desejo. Voltar para aquele livro. Conexões em rede. Porque o tempo é linear? Só consigo pensar uma coisa por vez. Então porque amiúde tantos pensamentos não me permitem focar? Os pensamentos tem vontade de caos. Vão, explodam, dispersem-se! Quando quiserem voltar, estarei aqui. Aí a gente vê o que faz. Mesmo que seja nada.

O que busco nessa volta? Nunca efetivamente se volta, já faz tempo que nos falaram sobre o tal homem e seu rio. Só se vai. Ou se fica parado. Não sei. Busco acolher meu sentimento, o que quero.

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