Esperanças e Ansiedades Coletivas

Em sua mais recente coluna, o sempre inspirador Contardo Calligaris relata sua tristeza despertada pela prisão de Lula. Tristeza essa decorrente do fim de uma esperança. Do “fracasso do Brasil, fracasso nosso, de todos e para todos”.

O colunista escreve: “Havia no ar uma enorme esperança, de um país menos desigual, mais digno, onde todos viveríamos melhor”.

Sofreríamos de alguma forma de ansiedade coletiva, duma desconfiança generalizada, que nos impede de negociar racionalmente?

No entanto, por uma razão ou por outra, essa esperança parece ter se materializado. Digo “parece” porque os objetos dessa esperança nunca deixarão de ser subjetivos, portanto, no máximo imperfeitamente mensuráveis. De qualquer forma, sem querer apontar agora causas ou responsáveis por esse processo, a desigualdade caiu, assim como a miséria. Níveis de escolaridade aumentaram. Ainda que muito precise melhorar, ao que tudo indica, há mais dignidade e vivemos melhor.

É obviamente triste vermos, mais uma vez, o desenvolvimento ser interrompido. Mas seria razão para perdermos a esperança em sua continuidade?

Pergunto-me, ao contrário, se os fatos recentes não nos ofereceriam a oportunidade de refletirmos justamente sobre nossa dificuldade em esperar. Afinal de contas, quem sempre viveu no país de um futuro que repetidamente fica no passado não suporta mais aguardar.

Haveria, portanto, uma compreensível impaciência na população brasileira. O problema é que essa impaciência acaba tendo um custo suficientemente alto para nos impor uma espera ainda maior. Queremos tudo agora. Mas não é o desejo em si o problema. A questão é que, por não sabermos priorizar, pagamos caro. Não é apenas por coincidência que temos juros – o preço do tempo – dos mais altos do mundo, ainda. Poupamos e investimos pouco. O desenvolvimento decepciona, portanto.

Sofreríamos de alguma forma de ansiedade coletiva, duma desconfiança generalizada, que nos impede de negociar racionalmente? De chegar a um consenso sobre o que queremos primeiro enquanto nação? De ser capaz de abrir mão de alguma coisa, confiando que isso nos permitirá conseguir outra? E assim compreender que, com bom planejamento, mesmo quem abre mão agora estará melhor no futuro?

Em outras palavras, estaríamos acometidos de uma angústia que nos impeliria a incessantemente buscar – e esperar – uma inexistente solução rápida para o desenvolvimento?

A prisão de um ex-presidente de grande popularidade mostra que mesmo tal figura se prejudica ao utilizar atalhos. O consenso precisa ser construído na base do convencimento racional, da argumentação, da negociação. Da paciência. Não funciona se envolver favores, propinas ou qualquer outro tipo de atalho.

Não sou ingênuo para achar que antes de Lula não havia corrupção. Mas certamente houve negociação e ajustes cujos ganhos não seriam imediato, e, ainda assim, foram feitos (lembrando que a inflação é das maiores causadoras de desigualdade, indignidade e vida pior).

A melhora do Brasil não começou com ele, e com ele não acaba. Essa é minha esperança.

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