Mediocridade, Crime e Castigo

Sossego? Só se por alguns instantes. Naquele intervalo entre comemorar a chegada da noite de sexta-feira e se preocupar com o que fazer no final de semana, talvez. O fato era que Eleutério constantemente achava que algo estava faltando. Que deveria fazer mais. Que, na eventualidade de ter algum tempo livre, deveria ocupá-lo com coisas importantes. Sentia que seus segundos eram valiosos demais para serem gastos apenas com o prazer instantâneo. Suas atitudes deveriam não somente entretê-lo no presente, mas também fazer dele uma pessoa melhor no futuro. Seu tempo tinha que valer para o agora e para o depois.

Cometer um assassinato, ler Crime e Castigo. Entrar para o corredor da fama da humanidade. Validar sua existência. Qualquer coisa para se afastar da mediocridade!

Foi numa dessas pausas que teve que ele decidiu ler Crime e Castigo. Acabar com aquela vergonha de ter até então ignorado uma obra tão basilar e ainda achar que poderia ser alguém. A questão era que Eleutério queria querer quando quisesse. Porque na vida prática, sua razão privilegiada lho permitia. No entanto, aqui se trata de arte. E aí, tentar controlar o desejo só o afasta. E a disciplina toda era em vão. Foram algumas tentativas interrompidas. As palavras passavam pelos seus olhos, mas ele se perdia em seus próprios pensamentos. Como poderia assim se embrenhar nas divagações de Raskolnikov? Era como uma meditação frustrada… Quando se percebia absorto em pensamentos, tarde demais para acolhê-los: já tinha virado umas duas páginas das quais nada se lembrava.

Mas Eleutério era obstinado e um dia chegou ao fim. Não que ele soubesse bem o que isso significava. Que diferença faria para o mundo ele ter virado a última página do livro? De qualquer forma, ele entendeu que Raskolnikov era um assassino. Mas qual era o sentido daquelas diversas tramas paralelas? Isso ainda lhe era de certa forma obscuro. Alguns daqueles nomes russos mencionados nos últimos capítulos ele não fazia mais ideia de quem eram. Não obstante, era como se tivesse ouvido uma linda canção numa língua desconhecida. A força da melodia o entusiasmava a entender a letra. Persistente que era, começou tudo de novo. E foi quando chegou, pela segunda vez, ao fim, que então percebeu que não precisava ler o livro. Caiu-lhe a ficha. Aquela história de achar que era necessário devorar a obra, talvez para tomar emprestado o respeito que a Dostoievski era dado, era bem equivalente ao assassinato realizado por Raskolnikov.

E ao não precisar ler o livro, pôde ter empatia por Raskolnikov. Sentiu o mal-estar do estudante petersburguês, que também achava que a razão tudo podia. Que era incapaz de ouvir seus sentimentos, e que apenas tudo teorizava, portanto. E que dividia os homens entre “comuns” e “extraordinários”. “Homens comuns devem viver submissos, não têm o direito de transgredir a lei, porque, veja bem, eles são comuns. Mas os homens extraordinários têm o direito de cometer qualquer crime e transgredir a lei de qualquer maneira, simplesmente porque são extraordinários”, como seria explicado por outro personagem do livro.

Uma teoria que, para Raskolnikov, acabou por virar verdade. Porque fez sentido. E, em seu mundo hiper-racionalista, o que tem lógica tem dignidade. Seu problema passava a ser somente compreender a que categoria pertencia. De preferência, enquadrar-se empiricamente na segunda delas, ser extraordinário. Praticar um crime e não sentir remorso. Pena que sua razão impecável nunca considerou que o sentimento era justamente o seu ponto fraco.

Eleutério pensou nas voltas que a neurose nos dá. Que assim como uma reta, um emaranhado também pode nascer de um fio contínuo. A lógica impecável não é condição suficiente para o alcance das melhores conclusões. Se Raskolnikov precisou elaborar toda aquela teoria, estava obviamente fadado a falhar. Se ele fosse de fato um homem extraordinário, teria matado e acabou.

Cometer um assassinato, ler Crime e Castigo. Entrar para o corredor da fama da humanidade. Validar sua existência. Qualquer coisa para se afastar da mediocridade!

Mas por que tentar tanto se diferenciar quando é tão mais fácil ser apenas mais um? Eleutério sentiu-se feliz em pelo menos poder fazer a pergunta.

Raskolnikov não pôde. Não conseguiria.

Mas seu conforto era limitado. Eleutério podia até ser capaz de se questionar. Entretanto, duvidava se um dia teria uma resposta. Em que pesasse seu sucesso profissional, fruto de uma racionalidade impecável, Eleutério por vezes se surpreendia com suas próprias variações de humor. Talvez justamente por essa racionalidade impecável. Uma coisa meio pendular, oscilando do desespero à euforia. Pelo legítimo, o neutro, passava tão rapidamente que mal sabia que cor tem… Primeiro vem o desconforto. O sentimento de inadequação, que vai espremendo, espremendo, e, tal qual uma mola, reage em fúria proporcional. E aí é preciso ser melhor que todos. O medíocre não é o neutro, ele é o nada.

Eleutério sentia que pensava demais e, mais uma vez, queria parar de pensar um pouco. Contudo, parecia que “Crime e Castigo” era para sentir pensando. E até que pensar sem sentir também era bom de vez em quando.

“Por que eu sou tão estúpido a ponto de que, se souber que os outros são estúpidos – e eu sei que eles são – isso não me fazer mais esperto?” Talvez Raskolnikov se questionasse por não ter contemplado a possibilidade de ser a mediocridade uma questão de referência. A referência de Raskolnikov era Napoleão. Tudo ou nada.

Eleutério se perguntava se para Napoleão todos seriam medíocres.

O descanso só viria quando Raskolnikov conseguisse sentir. Só assim para parar de pensar. Sua estratégia intelectualmente sofisticada não o livraria do senso de inadequação. Apenas o aumentaria.

“Eu matei a velha? Eu me matei, não a ela”.

Ao fracassar em seu plano, Raskolnikov acabou com sua esperança de ser alguém. E não ser alguém é igual a ser nada. Raskolnikov passou a ser oficialmente um homem comum. Provavelmente é o que qualquer indivíduo medianamente são lhe teria dito, se ele tivesse perguntado. Mas por que ele perguntaria algo aos medíocres ao seu redor?

Ele poderia ter feito diferente? Demorou algumas dezenas de capítulos, precisou de um sonho mostrando a impossibilidade de um mundo apenas de extraordinários, mas finalmente ele conseguiu. Conseguiu sentir.

Eleutério ponderava se as pessoas que se julgam superiores o fazem porque às vezes se sentem medíocres. Ainda bem que ele não precisa mais ler Crime e Castigo. Porque assim poderá optar por ler mais uma vez. E a cada releitura, gostará do prazer em perceber a função de cada frase. De ver que nada está ali por acidente! Mas, e se acaso alguns diálogos lhe parecerem frustrantemente desconectados do resto? Servirão para lembrá-lo de parar de constantemente procurar sentido em tudo. Menos ainda numa obra de arte. Eleutério sentia que pensava demais e, mais uma vez, queria parar de pensar um pouco. Contudo, parecia que “Crime e Castigo” era para sentir pensando. E até que pensar sem sentir também era bom de vez em quando.

Feliz com sua leitura, Eleutério foi preparar seu jantar. Fazia tempo que queria testar aquelas ervas que tinha ganhado de um amigo. Ligou o som e encheu sua taça de vinho. Começou a separar as cebolas e o alho que iria usar. Mas deixou-os de lado sobre a pia. Pediu uma pizza e foi ver aquele filme que havia muito queria assistir.

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2 thoughts on “Mediocridade, Crime e Castigo

  • É meu caro, como bem diz o provérbio, a lã não pesa ao carneiro! Na racionalidade da busca por ter que ser (ou ser visto como) extraordinário pelo dito senso comum, não gastamos energia com o desenvolvimento da própria individualidade. Somos todos igualmente diferentes, e extraordinariamente comuns!! Puta texto, gostei pacas (pq como o Eleutério, tb sofri a 1a vez q “tive” que ler a porra do Crime e Castigo, e a 2a vez q peguei “meio que sem querer” foi bem diferente!)

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