Morar na praia 2.0: “Slow life”?

Devagar? Não sei… Uma vida com mais paciência, talvez. Talvez porque ainda não sei se serei capaz de esperar esse nível de despreocupação chegar. Para então conseguir fazer uma coisa de cada vez. Alcançar a serenidade necessária para saber que cada coisa virá em seu justo momento. E que, nessa vida na praia, o “tudo ao mesmo tempo agora” será oficialmente impossível.

Mas onde não seria?

Quero ter calma para aprender a escolher. E já não ficaria feliz se apenas esquecesse o desescolher? Em vez de pulular de atividade em atividade, dar uma chance de ocupar o tempo – e a atenção – com uma coisa só. E aumentar assim a chance de entender seu significado. Monotasking.

Posso abrir mão da simultaneidade em nome da profundidade? Provavelmente sim. Mas para ir fundo mesmo, deve-se ganhar certa velocidade, pegar embalo. Eu chego lá, acho. Mas é também plausível que não chegue. Por que queremos chegar lá se já sabemos de antemão que nunca chegaremos lá? Como bem lembrado pelo ex-chefe, “I can’t get no satisfaction”.

Em todo caso, quero ter calma para aprender a escolher. E já não ficaria feliz se apenas esquecesse o desescolher? Em vez de pulular de atividade em atividade, dar uma chance de ocupar o tempo – e a atenção – com uma coisa só. E aumentar assim a chance de entender seu significado.

Monotasking.

Nessa tal vida na praia já levo uns seis meses. Primeiro em Ibiza, agora em Caraíva. Ante 39 anos de São Paulo. O rol dos prazeres urbanos abdicados já ocupa mais de uma folha. Inclui aquele cineminha walking distance que toda semana tinha algo novo. De um país novo. Teatro só após algumas horas de voo. Mas insuperável mesmo é a perda daqueles encontros antes quase diários com pessoas queridas. Parece que quanto mais alguém me é querido, mas difícil fica o contato virtual. Até porque contato virtual não inventaram. Não que eu saiba.

Abdicação temporária, no entanto. A cidade continua lá, com suas facetas mil. Mil menos uma. Porque a paciência é um aspecto da vida que lá não se cultiva. Justamente o que mais precisarei para lembrar, ao sentir a falta do bar de jazz quando estiver na trilha na montanha, que agora é hora da montanha. Que em outra hora volto à cidade e então concentro tudo o que for atividade cultural. Almejo habilitar-me um dia a avaliar se, fora da cidade, a paciência é a faceta da vida capaz de tornar supérfluas todas as demais.

Mas por ora vou tentar não deixar lembranças de prédios e carros distraírem minha atenção. De volta à praia, quero ter a impressão de que tudo o que vier a fazer, farei com mais intenção. Porque coisas que na megalópole fazia sem querer serão menos frequentes. Já não gastarei tanto tempo nos ires-e-vires, por exemplo. Filas serão menores. De maneira geral, serão mais raros os “embargos naturais das coisas”, nas palavras do querido amigo pessimista. Logo, torna-se também dispensável um certo intervalo de descompressão entre uma coisa e outra. Aumentam as horas do dia? Não. Mas cresce o zelo a cada um de seus instantes.

Melhor então eu aumentar a intensidade das menos opções disponíveis. Que eu me permita mergulhar numa leitura, por exemplo. Ler, como qualquer atividade, precisa de um certo aquecimento. Só começa a fluir depois de uma meia hora. E precisa ser intercalada com momentos de introspecção. E de absorção: quero saber o que essas palavras todas significam para mim.

Não entendo por que chamaria isso tudo de “slow life”. Porque a cada dia será mais curta a to do list concluída? Porque a velocidade da vida é dada pelo número de tarefas cumpridas? Não sei. Sei que vou regozijar-me no dia em que finalmente riscar da lista aquela última tarefa que era “não mais ter to do lists, nem as mentais”. Sei que fico feliz da vida cada vez que tenho um novo insight. E que eles vêm com mais facilidade quando a mente pode sair para passear por aí sem se preocupar se está ou não aproveitando a vida, menos ainda se isso significar estar em mil atividades apenas de corpo presente.

Aproveitar o bom da praia que é ter pouca opção. Ou se anda para um lado, ou se anda para outro, não tem muito o que decidir. A viagem interna é ótima. Pena que do lado de fora, a chance do inesperado reduz-se muito. A vida ficará mais previsível? Talvez. Mas quando o isolamento ou o tédio se aproximarem, como há de acontecer, espero poder voltar a encontrar todas aquelas pessoas que justificam uma vida entre prédios. Uma hora vai chegar a hora de voltar de vez? Felizmente, neste momento eu não sei. Se chegar, espero apenas que não seja pela impossível ilusão com a qual a cidade insiste em nos tentar: a de alcançar um uso ótimo do tempo.

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