Morar na praia

A cidade é a causa e a solução de todos os nossos problemas. É um jeito que eu entendi O Mal-estar na Civilização, do Freud. Os seres humanos precisam conter seus instintos para conseguir viver em sociedade, que cria a rede de suporte que nos ajuda a ser feliz. Mas ao contermos nossos instintos, somos infelizes.

São Paulo tem o lado empreendedor, ambicioso. Eficiente: gera riqueza. Pode-se dar ao luxo de ter um lado artístico, despretensioso. Lados nitidamente misturados. Empreendedores têm sucesso se são artistas. Artistas empreendem para serem ouvidos.

Na megalópole eu posso ser invisível. Mas sou lembrado o tempo todo que é preciso que me vejam. O fazer é jogado toda hora na nossa cara, difícil apenas ser.

Eu quero ficar meia hora na banheira, ler um pouco, aí acho que vou pensar em algo diferente.

Mas não dá tempo de se entediar. Quando não estou fazendo algo, preciso descansar do que acabei de fazer. Ficar sem nada mesmo para fazer é difícil. Tanto que desacostuma.

Aí vai pra praia. E não sabe o que fazer. Uma hora, sol e mar cansam. Já foi em todos os poucos restaurantes. E imagina que não dá para morar na praia, porque depois de uma dúzia de dias você ficaria louco. Louco de quê? De não ter o que fazer. É só parar de tentar.

Na megalópole eu posso ser invisível. Mas sou lembrado o tempo todo que é preciso que me vejam

Eu comecei a ir a Ibiza aos poucos. Já na fase pós-banco, que me permitiu ir sem data para voltar. Que ajuda a conter a obsessão por aproveitar cada momento.

Em vez de trabalhar eu vou à praia. Tá ótimo. Mas e depois, tem uns restaurantes bacanas? Um lugar legal para tomar um café? (Balada eu já ignorava)

Demora um tempo para domar esse impulso de replicar, ainda que parcialmente, a vida de São Paulo, ou ao menos sua ética. Era a única entranhada em mim.

Não precisa ir a restaurante, é legal cozinhar em casa. Ou levar sanduíche pra praia, como todo mundo faz. Gasta pouco. Ler na praia. Não fazer nada.

O desapego de São Paulo é lento: eu moro aqui há 39 anos. Mas adorei ir conhecendo essa vida de praia sem ela ser o plano. Até que virou o plano, quando a hora chegou.

Sempre imaginei quanto poderia ser difícil morar num lugar pacato, tendo acostumado com a diversidade da São Paulo de uma vida. Agora desacostumei. Não vejo a hora de passar uns meses em Caraíva.

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