O fim de semana, as férias e o ano sabático

Se tem uma coisa da qual tenho saudade dos meus tempos de firma é aquela sensação quase eufórica de sexta-feira à noite. Uma combinação do sentimento de dever cumprido com a consequente possibilidade de fazer absolutamente o que se quer, inclusive nada. É aquela hora de ligar o som, tomar um vinho… Permitir-se relaxar.

Depois de uns dias relaxando, aparece uma versão supostamente mais atual do superego. Aquela que te julga não pelo cumprir das regras. Mas pelo “não aproveitar”. É preciso otimizar o uso do tempo livre.

No fim de semana, você quase joga fora aquele superego freudiano: se embriaga, se entorpece. Afoga aquela voz que te diz que não pode isso, não pode aquilo. Que não pode dormir tarde porque tem conference call às 8:10. Que mesmo acabado não pode faltar na academia. Que não pode beber porque trabalhar de ressaca é algo próximo demais da morte em vida para ser suportado.

Pena que a euforia tem aquele problema de acabar, e quando ela passa

Tanto é que nas férias, muito tempo livre, a coisa pode ficar um pouco mais complicada. A princípio, você até se permite uns dias de folga. O eterno censor interno até permite. Porque você está fazendo tudo dentro das regras: mereceu aqueles dias. Pode descansar. Pode não fazer nada.

Tudo estaria bem, não fosse essa bendita “pós modernidade”… porque depois de uns dias relaxando, aparece uma versão supostamente mais atual do superego. Aquela que te julga não pelo cumprir das regras. Mas pelo “não aproveitar”. A agonia não vem da culpa de estar fazendo algo indevido. Mas de não saber se está fazendo o melhor que se pode. É preciso otimizar o uso do tempo livre. Um labirinto sem fim.

As otimizações pressupõem parâmetros conhecidos. Vão levar, no mais favorável dos casos, ao que se pode fazer de melhor numa situação já familiar: a escolha mais interessante entre as que conheço. Mas mantendo as portas fechadas à real experimentação.

O lado ruim do fim das grandes causas, da desconstrução feita pelo martelo de Nietzsche, é que não tem mais religião, líder, pátria para te dizer o que fazer. Mas o lado bom é que te libera para fazer o que quiser.

O problema é não conseguirmos nos colocar nem de um lado nem de outro. Podemos fazer o que quisermos, mas não sabemos o que queremos. Trabalhando doze horas por dia, não dá para saber mesmo. Nessas horas todas de labuta, a dedicação vai para fazer as coisas acontecerem de uma determinada maneira, maximizando resultados. O que se quer, o subjetivo, vai ficando cada vez mais escondido pelas to do lists. Difícil de exercitar a escuta do desejo.

E aí acreditamos que estamos enganando essa agonia do desfrute alimentando-a: planejando detalhadamente o que se vai fazer nas férias. Permitindo-se, no máximo, uma tarde livre. Uma tarde que acaba por replicar aquela liberdade da sexta-feira à noite: “visitei 8 lugares que queria (precisava?). Posso, portanto, não fazer nada agora”. A questão é se essa maximização do prazer levou de fato a algum desfrute…

Você se permitiu relaxar, porque teria cumprido um objetivo. Mas relaxa somente até ressurgir a angústia pelo ócio. Que te impede de utilizar o momento de desocupação para descobrir o que te dá prazer. Momento precioso que acaba sendo soterrado por mais ações (nada a ver com o ócio criativo do Domenico de Masi, em que se desenvolve um trabalho intelectual e divertido; estou falando de descansar mesmo!)

Aquele tanto de selfie que tiram em museu. Me pergunto o que se consegue fruir ao passar dois segundos tirando foto na frente de um quadro antes de passar para o próximo. Indagação oriunda talvez da minha inveja, que provavelmente subestima a capacidade das pessoas que conseguem se envolver com uma obra de arte em tão poucos instantes.

É algo como: “Não sei o que me dá prazer. Menos ainda por que um quadro me daria prazer. Então tiro e compartilho uma foto e deixo para os outros a tarefa de dizer se aquela experiência vale a pena ou não. E sigo correndo, na tentativa de maximizar o uso do meu tempo.”

Lembro-me de, certa vez, num café em Amsterdam, ouvir um rapaz comentando à sua companheira “que eram esses os melhores momentos das férias, os de andar por aí sem compromisso”. E não é o que deveríamos fazer durante todas as férias? Fazer as coisas por gosto, e não por compromisso?

Ano sabático. “Mas para fazer o quê?”, me perguntam. Se soubesse, não seria bem um sabático. Seria ano de um curso, de uma volta ao mundo.

Ano sabático. Período sabático. “Mas para fazer o quê?”, me perguntam. Se soubesse, não seria bem um sabático, de descanso, inatividade. Seria período de um curso, de uma volta ao mundo.

Após mais de um ano desde o início do meu sabático, começo a entender para que ele serviu: para tentar calar essa voz que me ordena aproveitar o dia. Para ter tempo suficiente para fazer com que o carpe diem seja uma recomendação ao seguimento do desejo, e não uma obrigação.

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