O Junguianismo de RuPaul’s drag race

RuPaul’s Drag Race tem sido uma de minhas séries favoritas (sim, estou um pouco atrasado, eu sei…). Não apenas por ter aquele nível hilário de tosquisse. Mas pela leveza como mostra, capítulo a capítulo, as drags seguindo o seu processo de individuação, na melhor tradição junguiana. No meio de tantas cores e maneirismos, o objetivo implícito do programa é levar cada participante a chegar a ser quem é.

A drag queen é por definição um personagem, das mais diversas categorias: comedy queens, pageant queens, post-modern queens. Exageradas, como numa novela mexicana. Ainda mais no início de cada corrida, quando os competidores tentam realçar ainda mais suas características: ninguém quer ser esquecido. Todavia, o programa vai mostrando que todo esse exagero é apenas uma lente de aumento de cada personalidade por trás dos enfeites, e é isso que realmente importa.

As personalidades precisam evoluir. Ao longo de cada temporada ninguém pode se apoiar em poucos bordões ou caretas, e menos ainda, obviamente, repetir modelos. Por outro lado, também fica claro que tentar algo diferente apenas pelo diferente tampouco funciona. As drags precisam estar seguras em sua versatilidade (com o perdão do trocadilho). E aí, tem sucesso quem consegue colocar sua identidade em cada variação. É algo como “saia da sua zona de conforto, mas continue confortável”. Ou melhor: “amplie sua zona de conforto”. Como? Sendo honesto consigo próprio.

Cada vez que uma candidata se sai bem numa prova, os juízes a recomendam que leve aquela boa performance para as etapas seguintes. O que caracteriza a boa performance? A naturalidade, o grande estilo à la Nietzsche, o prazer em ser quem se é. Como se alcança? Assumindo-se a si próprio, fazendo as pazes com suas limitações (consequentemente, descartando-se quem não se é).

Simples na teoria, tarefa para uma vida na prática. Tanto que só uma drag chega ao final. Para quem atingiu sua individuação, ser a America’s next drag superstar é só um detalhe.

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