O toldo e o menino

O toldo está ali: amarrado. Duas pontas lá em cima, no alto da parede. A terceira, mais embaixo, na mureta da frente. Ele acha que gosta do sol. E fica ali, paradão, se esquentando. Até que chega o vento, todo de uma vez, ninguém sabe de onde.

O que o toldo queria mesmo era ser a parede. Ninguém nem consegue dizer se tá ventando olhando só para ela.

O toldo estufa de repente. Instantaneamente, abaúla-se vigorosamente para cima. E, em seguida, para baixo. Se assusta com o barulho que ele mesmo faz indo de um lado para o outro. A cada rajada, a cada estalo, acha que não vai aguentar. Já nem percebe se o sol ainda está lá ou não.

Uma vez o vento foi tão forte que ele acabou voando para cima do telhado. Foi aí que revisaram suas amarras com cuidado. E mil ventos não mais o derrubaram.

Ainda assim, o que o toldo queria mesmo era ser a parede. Ninguém nem consegue dizer se tá ventando olhando só para ela.

A porta bate. Não que faça diferença, mas o toldo prefere se agarrar firme até que o vento passe.

**

Do outro lado, de dentro da cozinha, o menino ouve as vozes na sala. Ele não era de falar muito, não.

Foi o que a mãe disse antes de pegar um dos copos de suco que o menino então trazia na bandeja. O outro copo era para a tia que não visitava nunca. Na verdade, tinha visto o menino apenas uma vez, mas a ela não ocorreria que, para ele, era uma estranha. Também nem pensaria que o perfume forte e a quantidade de cores em suas roupas poderiam tê-lo deixado desnorteado. O menino já se preparava para responder o que estava aprendendo na escola, mas aí a tia já comentava com a mãe das novidades que comprara na rua 25 de Março, em São Paulo. Fariam seu bazar prosperar.

Antes que pudesse atrapalhar a conversa, o menino preferiu voltar para o quarto e guardar seus carrinhos. Ele podia até se embaralhar um pouco quando tinha que falar com gente nova. Mas bagunceiro ele não era. Suas tarefas sempre estavam prontas antes que lhe fossem cobradas.

Colocou por cima de todos o carrinho prateado. Nele viu o reflexo de seus cílios extensos e sorriu. O menino sabia que seu olhar encantava.

Guardou a caixa no armário e saiu para jogar bola.

**

Eleutério adorava psicanálise. Talvez por ter com ela uma relação quase sanguínea. Ele ainda era criança quando ouviu aqueles abstratos conceitos serem aplicados a ele.

Jung. Falaram-lhe sobre uma tal cruz, em cujas extremidades se encontrariam os tipos psicológicos descritos pelo discípulo suíço de Freud: pensamento oposto ao sentimento, no eixo racional, e intuição oposta à sensação, no eixo irracional. E que uma dessas quatro funções da consciência seria a principal em cada um de nós. Em sua oposição, no mesmo braço da cruz, estaria a função inferior. Ele achava esse nome um tanto quanto assustador.

Em sua tenra idade, Eleutério obviamente não era capaz de entender bem o que isso tudo significava. Ainda assim, guardava daí uma memória que influenciou muito sua vida: ele carregava a lembrança de que, como pensava bem demais (mas sem saber se “bem” ou se “demais”), teria que tomar cuidado com o despreparo de seus sentimentos.

Acabou pegando. Porque fazia sentido, claro. Entender as coisas era muito mais gostoso do que oscilar entre tristeza e euforia, por exemplo. O problema é que ele passou a ter um certo medo do que sentia. Em caso de dúvidas quaisquer, preferia sempre pensar a resposta.

Muitas decisões erradas depois, ele descobriu que não era bem isso. Ele só tinha a sorte de sentir demais.

Tags: , , , ,

Deixe uma resposta