Ousar e voltar. E voltar a ousar.

Tem hora que dá vontade de largar tudo e sair por aí. Voando feito um grão de poeira. É fechar os olhos e imaginar todos os presentes e futuros que poderiam acontecer, caso apenas estivéssemos dispostos a nos livrar do que julgamos estar determinado por nosso passado. Na maioria das vezes, acabamos por ficar na vontade. Falta a coragem para ser um grão de poeira além de em pensamento. Porque esse grão é irrelevante, invisível. Não tem controle nenhum sobre sua existência. Características essas que provavelmente soam mais insuportáveis do que qualquer atividade que exerçamos para nos tornar relevantes, visíveis. Ter controle sobre nossas existências. Queremos que alguém nos reconheça. Por isso precisamos agradar? Quanto de nossa liberdade vale essa “atitude para os outros”? Isso se esse outro existir de fato, e isso se um dia “ele” se sentir agradado. Será que quanto mais caminharmos em direção a nossa singularidade, mais sozinho ficaremos? Existe um ponto em que devemos parar? Sem saber, melhor ir e vir. Avançar e voltar. Não fazer apenas o que devemos, mas também aproveitar o que podemos.

Será que quanto mais caminharmos em direção a nossa singularidade, mais sozinho ficaremos? Existe um ponto em que devemos parar? Sem saber, melhor ir e vir. Avançar e voltar.

E então saímos assim, meio a esmo. Agora já sem planejar – depois de muito planejamento, claro. Reunir as condições para ir, mas ir sem saber bem para onde.

Eu não planejei morar em Amsterdam, nem morar em Caraíva, ainda que sempre tenha sonhado com ambas. E acabei nas duas, nessas cidades gêmeas siamesas conectadas pelo meu desejo de não-precisar. De meus devaneios de poder-ser essas cidades sempre foram o cenário. Em Amsterdam, tudo o que é bom é permitido. Em Caraíva ninguém fica se não amar. Já pensou o que é viver num lugar no qual todos gostam de estar? Rodeadas de água, são cidades seguras. E não seria segurança tanto a garantia da integridade física como também autoconfiança? Sempre me foi seguro que nelas me sentiria bem. Solto.

Sair delas, no entanto? Os filósofos já muito falaram que o humano, em sua perfectibilidade, encara um caminho infinito em direção ao ideal de liberdade. Mas também avisaram que nós, mortais, não chegaremos a essa capacidade absoluta de arbítrio. É óbvio: o infinito está além da morte. Faz então sentido seguir obstinadamente um caminho que, sabemos de antemão, não vai ser concluído? Ir aonde o vento levar só faz bem. Mas curtir um pouco as raízes é o que acalma. Nessa escolha entre liberdade e conforto, quero optar por “um pouco dessa, depois um pouco daquela” e por que não “mais um tanto dessa novamente”?

Paulistano por lá ter primeiro visto o mundo. E por ter decidido ali ficar enquanto ele dava suas voltas. São Paulo sempre terá um conforto a (me) oferecer.

Ainda que São Paulo seja a de tantas ruas sem significado. Daquelas esquinas – quantas delas – pelas quais apenas rapidamente passamos. Às quais nunca pensaríamos em nos fundir eternamente. Lembranças de placas azuis com letras brancas, delimitadas pela janela do carro. Com sorte, alguma árvore. Cortada, para que os fios a cortem. Calçadas quebradas, ervas daninhas. A quantidade de detalhes que se consegue apreender no intervalo de um farol vermelho.

No entanto, ali onde toda a natureza foi controlada, ou escondida, ou vista como empecilho para um trânsito mais fluido, abunda a natureza humana. A natureza de São Paulo é ser humana. Tantos olhares, movimentos, vozes. São Paulo me lembra o sorriso de tantos amigos. E as vontades de mudar o mundo entrando todo dia de manhã cedinho no metrô. Todo mundo luta para ser feliz em São Paulo. Uma grande massa de vontade de felicidade deslizando sobre essas ruas às quais não queremos nos fundir eternamente porque somos vivos demais para isso.

Volto porque posso sair. Porque o feito soa como permitir-se. Esse voo que um dia foi inimaginável já se incorpora ao passado, e de lá não sairá: o “eu fiz” é para sempre. Essas ousadias nos protegem: uma experiência não planejada sempre vai dar certo. Porque não tinha objetivo, a não ser o de ousar. E ver que funciona. Proteções, vão-se embora! Liberdade deve ter a ver com isso, com precisar de pouco para se garantir.

Com menos restrições, experimentar.

Menos medo.

Ir.

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