Prazeres e responsabilidades

Tentamos racionalizar tudo na hora de tomar uma decisão. Mas parece que é aí que empaca. Pondera os prós e contras. Mas que peso deve se dar àquele frio na espinha?

É bastante provável que a deliberação estritamente racional de tentar a sorte fora do mundo corporativo tenha sido tomada anos antes da ação em si. Já não fazia mais sentido continuar. Argumentos não faltavam. Mas tinha aquele medo… Medo do que exatamente? De coisas que não era capaz de imaginar que poderiam acontecer, claro. Senão racionalizadas seriam. Queria migrar para uma situação onde as peças parecessem se encaixar melhor. No entanto, mesmo naquele arranjo empresarial recheado de obrigações existia algum aconchego. O aconchego de poder ser menos responsável por mim mesmo. Autonomia às vezes assusta.

Naquele mundo onde tudo se sente imposto, pelo menos existe uma estrutura da qual se pode reclamar. Go with the flow. É mais cômodo, quando se está cansado demais para pensar na alternativa. Tirar o corpo fora. Mais fácil seguir uma trilha do que a abrir com facão. Para quem está perdido, o caminho das corporações se torna atraente em seu limitado espaço de manobra. Claro que decisões sempre precisarão ser tomadas: a quais projetos se dedicar com maior intensidade, como lidar com pessoas difíceis. Saber a hora de mudar de empresa. Ter ideias para deixar o trabalho mais criativo – ou, o que é equivalente, deixar a sua marca e assim se tornar menos prescindível. Mas tudo dentro de um arcabouço geral em grande medida conhecido. Esquemão. Os cargos cobiçados meio que já estão lá. Assim como a perspectiva de remuneração, ou mesmo a carga horária e os locais de trabalho. Traz um certo conforto.

O conforto de uma cama de Procusto. Porque o sucesso virá para quem tiver pernas de tamanho compatível ao da organização. Se por um lado a estrutura delineia o mapa do desenvolvimento de carreiras, em contrapartida exige que seus membros a ela se adequem. Faca de dois gumes. Quem é mais produtivo à noite precisa fazer conference call às 8 da manhã, quem trabalha melhor em silêncio precisa ouvir discussões sobre a dança dos famosos. No gelo.

Mas se tudo isso é realmente ruim, por que tais “moedores de gente” (termo emprestado da analista) continuam existindo? O salário certo no fim do mês, a menor chance do fracasso coletivo ante o individual (onde além de tudo se sofre sozinho): redução de riscos. Parece aquilo que economistas chamam de equilíbrio ruim. Não faz sentido sair, apesar de o sentimento ser ruim. O medo, incompreensível, paralisa.

Pedi demissão. Mas ao buscar um sentido que ainda estava distante, o que primeiro vi foi o vazio. Entre os vácuos que surgiram nas primeiras semanas, senti a falta da muleta que era o emprego, bode expiatório para toda sorte de mazelas da vida. Se a estrutura profissional em que me encaixei exige mais do que posso oferecer, tenho uma desculpa para o que não vai bem nas áreas em que não poderei ser suficiente. Não me divirto com amigos na frequência que gostaria porque tenho que acordar muito cedo. É difícil manter um relacionamento quando tenho que viajar tanto. Não leio os livros que gostaria porque aos finais de semana estou cansado. Todavia, se agora eu escolhi, agora eu banco. Pesa.

Me sinto mais livre. Porém agora os demais problemas da vida não podem mais ser hipocritamente protelados. Mas talvez se resolvam com mais facilidade. Parafraseando o tio do homem-aranha, com grandes prazeres vêm grandes responsabilidades. Quando comentei a situação com um amigo psicanalista, ele prontamente me respondeu: “o mundo continua exatamente o mesmo. Você apenas não está mais indo ao seu emprego”.

A razão pode falar mais forte. Mas ela não pensa o medo de sair. Porque ele é irracional. Precisa sentir para explicar. Torná-lo racional? Aí deixa de assustar. Só experimentando.

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