Reconhecidamente anônimo

Tem aquela velha anedota do executivo de sucesso que, durante suas férias, ancora sua pujante lancha numa praia idílica. Coloca seu panamá, e em seu bote se dirige até a areia. Tomado por aquele êxtase das férias, sempre propício à extroversão, vai sorridente conversar com o nativo. E lhe pergunta o que ele faz naquele lugar. Surpreende-se com a modesta ambição do caiçara, que durante a manhã pescava o que iria comer no dia. “Mas por que o senhor não passa mais horas no mar, e vende os peixes restantes no mercado?”. Por que faria isso? “Para poupar dinheiro. Para comprar um barco melhor. Pescar ainda mais peixes e enriquecer.” O local não se convence. “Para então poder viajar. E conhecer lugares maravilhosos!” Ao que o nativo apenas sorri.

Precisa de muita escolha quem não sabe bem o que quer. Liberdade é poder seguir apenas uma opção, a que te faz bem.

Ibiza. Platja d’es Porroig. Uma baía azul, onde nem se notaria o mover das águas,  não fosse pelo barulho das pequenas pedras tilintando à beira-mar. E lá estou eu pensando que não sei bem quanto dinheiro vai entrar até o fim do ano. As rendas agora são muito mais variáveis.

Interessante que a dúvida tenha surgido justamente num momento em que minhas decisões oscilam entre adotar uma abordagem mais comercial ou buscar a linha mais autoral em meus projetos. Quando escolhi tentar uma vida fora do caminho corporativo, esperava ter que seguir apenas dois indicadores de performance no que viesse a fazer: ser honesto comigo e me divertir. O resto, veria como viria.

Afinal, a ideia disso tudo é parar para pensar… ler, aprender, estudar… mas também aproveitar. Ir à praia na quinta-feira. Divertir-me! Ser menos comercial. Reduzir a participação nos mercados de troca? Distanciar-se do pecuniário.

Ser honesto comigo mesmo. Tentar ser autêntico? Só se estiver pronto para depender menos do reconhecimento externo. Pronto para não esperar nada. Nem dinheiro?

No mercado financeiro, reconhecimento é dinheiro. Tá, é legal ser elogiado, perceber sua contribuição, essas coisas. Mas a coisa se esclarecia mesmo era quando o bônus anual chegava. Depois de um ano de dúvidas. De que iriam te pagar de acordo com o que você produziu? De que você performou? De que você é uma boa pessoa?

Aliás, tinha gente que falava que o bônus refletia o desempenho passado. Outros diziam que era de acordo com o que esperavam que você fosse entregar no ano seguinte. Eu tinha uma teoria de que o bônus também era relacionado ao grau de motivação percebida no funcionário. E aí pagavam o suficiente para você não caber em si por uns três meses. Porque nos próximos dois você se questionaria se estaria valendo a pena continuar com tanta dedicação (as 12 horas de trabalho diário, as viagens, e tudo mais que um dia mostrei aqui). Mas aí já meio ano teria passado. E você decidiria manter o esforço na metade restante, para não abrir mão do que já fizera. E la nave va.

Ser menos comercial. Ser autêntico. Entrar no meio do mato sem trilha nem guia. Dispor-se a iniciar um projeto sem perspectiva do retorno financeiro não assusta apenas pela possibilidade de alienação daquilo que o dinheiro pode comprar. Abrir mão de uma perspectiva financeira envolve também abdicar da medida de reconhecimento (valor?) que o dinheiro certo no fim do mês te confere. Não surpreende, assim, que as preocupações financeiras surjam com mais força nos momentos de insegurança pessoal. Quando se questiona sobre o quanto se é capaz.

Por muito tempo, achava que liberdade era ter o máximo possível de escolhas. Que só valeria a pena sair do mercado financeiro se pudesse manter o mesmo estilo de vida no sentido de poder viajar para onde quisesse, ficar no hotel que escolhesse. Precisa de muita escolha quem não sabe bem o que quer. Liberdade é poder seguir apenas uma opção, a que te faz bem.

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