Reflexão Claudicante

I – Aquele detalhezinho, ele mesmo

Eu não tenho / Eu não posso / Eu não sou

Mas…

Posso ter / Posso poder / Posso até ser

Eis a questão.

Lembrar que posso ter mas não tenho? Que até poderia poder, mas não posso. Que muito mesmo seria, mas não sou. E ainda assim, dar-me por contente?

O pensamento não tem limites. Pensa até Deus, mesmo que não consiga exatamente imaginá-lo. Afinal, alguém consegue ter uma imagem do tudo?

E mesmo que suponha conseguir imaginar tudo aquilo que existe. Não conseguiria então também pensar que caberia uma coisinha a mais?

E aí que a gente faz esse esforço hercúleo de chegar no tudo. Mas fica quebrando a cabeça é com esse negocinho adicional. Esse aí que vem só para nos lembrar que o tudo nunca vai ser todo.

Que nunca terei tudo o que posso ter. Que nunca completamente poderei o que imagino um dia poder. Que nunca vou ser totalmente o que posso ser. E ainda assim, dar-me por contente.

II – Tudo é bom porque acaba

E tem aquela hora em que você está deitado. Lendo, talvez. E então, bem no meio daquele instante em que você esquecia que vivia, ele cai assim, todo de uma vez, sobre você. O drama humano.

Todo o drama humano parece muita coisa. Mas é bem o contrário. Justamente por ser pouco é que inquieta.

A finitude. O que fazer com ela? Com esse pouco que parece muito. Porque é tudo que temos, afinal. Por que preocupa tanto se de qualquer forma acaba? Ao fim e ao cabo, não dará tudo na mesma?

Diz o psicólogo que humano é a falta, a imperfeição. Falta em relação a Deus?

Que baita engenhosidade essa do ser humano: inventar ideais para depois tentar frustradamente alcançá-los (ou não seriam ideais). Ou estabelecer um absoluto apenas para permitir que nos vejamos pelo que não somos. Por essa falta. Tudo a que temos acesso é a nossa vida. Aí vamos lá e inventamos a eternidade. Para ficar pensando como o que foi ou o que será são muito mais do que aquilo que é.

Eu queria saber se quando se tem um filho, muda o senso de finitude. Mas muitas pessoas tiveram filhos ao longo dos séculos e os filósofos ainda não descobriram o que fazer com a finitude. Nem pararam de filosofar.

Não deve ser por isso que se tem um filho.

Filho é uma questão de amor. Amor que traz à vida o significado que perdemos quando deixamos de acreditar em mitos? Acho que Luc Ferry responderia afirmativamente.

Que boa coincidência: o único ser a se preocupar tanto com o que não é é também o único capacitado para amar. Sublimar a falta não seria convertê-la em arte? E o amor? Na ausência de um filho, em que se sublimaria?

A falta e o amor vão se alternando, forças motrizes em quem quer que pense, aprenda e sinta. Só devem se fundir no infinito. Mas lá, tudo já estará fundido, como sugeria aquele economista que deveria era ter sido poeta.

Queria também saber como é ter um talento daqueles que mudam o mundo. Porque aí sim as decisões tomadas durante essa finitude poderiam fazer diferença.

Mas fariam? Todo mundo muda o mundo pelo simples fato de respirar. E por que o mundo precisaria ser mudado? Essa voz passiva não precisa de agente: desde que surgiu, o mundo só muda, sempre. Mudar o mundo seria então fazê-lo parar? Se for o caso, pelo menos a finitude deixará de fazer sentido ou preocupar. Pena que todo o resto também.

Sentir o começo, o meio e o fim, todos ao mesmo tempo, traz um sensação de sublime. Será que é aí que aquele amor sublima?

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