Rumo ao vento

Sexta-feira. 6:10 da manhã. Toca o despertador. De onde veio a força para empurrar as cobertas e levantar eu não sei. Semana tinha sido cheia, com chefe de férias. Parecia que tinha acabado de deitar. Enfim, 7:30 já no escritório. 8:00 gravação de vídeo para o site. 8:10, conference call com a mesa de futuros. 8:30, com o time de Nova York. Monte de coisas para fechar antes de viajar, naquele mesmo dia. Conferir apresentações, separar cartões. 17:00 voltando para casa, para pegar minha mala de fazer inveja a George Clooney em Up in the Air.

Liga o colega de NY. Cliente quer conference call. Espera uns 15 minutos, que aí já tô no táxi, é melhor para falar. Aeroporto, eu e minha malinha de mão, e já é hora de embarcar.

Abu Dhabi, sábado a noite. Mais tarde do que a hora que eu gostaria. Porque lá domingo ninguém descansa. Toca o despertador. Não tenho ideia de que horas são no fuso de casa. Mas as reuniões começam. Uma, duas, cinco… Aeroporto. Avião. 8 horas até Hong Kong. Mas dessa vez tô preparado: stilnox para meu corpo não ter dúvida de que é hora de dormir. “Aperta o cinto, se cobre e toma, porque você vai capotar”, me disseram. I wish. Efeito paradoxal: sou um dos felizes 10% da população para a qual stilnox tem o efeito de 10 red bulls. Vou lembrar quando tiver que passar a noite em claro.

Mas a agenda de Hong Kong não muda por isso. Duas horas no hotel para fingir que tá tudo bem e começa a primeira reunião, segunda, sétima. Jantar com cliente. Que pede sobremesa. Chá. Talvez tenha pedido algo mais, mas eu já tinha desistido e dormido no sofá do restaurante.

Por que cazzo eu tô fazendo tudo isso?

Eu fui criado numa vida bastante simples. Mãe professora, pai médico, classe média da São Paulo da incerteza econômica dos anos 80. Tudo foi acontecendo meio por acaso, sem muito plano. As decisões eram baseadas mais na ideia de segurança do que em qualquer rascunho de um plano de realização pessoal. No Brasil do pré-Real, ainda era muito arriscado tentar uma carreira pouco convencional. Acabei fazendo engenharia de produção. Depois de formado, até tentei parar para pensar um pouco, quando decidi fazer mestrado. Mas aí veio um convite irrecusável para o mercado financeiro hard core.

Mas sair assim da estrutura, ficar livre para ir aonde o vento me levasse? Dava medo. Mas fui. Com medo mesmo.

Aprendi muito, cresci muito, me superei muito nesses anos de corretora. Conheci pessoas brilhantes. Tive discussões interessantíssimas. E, é claro, deu para juntar um dinheiro, comprar meu apartamento, fazer viagens legais. Mas aí chega a hora de embarcar para Abu Dhabi. De comprar coisas que não precisava. De gastar dinheiro com jantares porque afinal de contas eu trabalho para isso. Para compensar materialmente a dissonância entre o que eu era e o que queria ser. Começou a ser tudo um pouco demais.

Será que não devia poupar um tanto mais? Talvez em mais uns dois anos vai acontecer isso e aquilo e as coisas ficam melhores? Vai saber. E não importa. Assim como já dissera Giselle Bündchen ao se aposentar, meu corpo pedia para parar. Foram algumas internações com dor de estômago, de garganta, essas coisas. Tem hora que o melhor é parar de pensar.

Mas sair assim da estrutura, ficar livre para ir aonde o vento me levasse? E se fosse a um beco sem saída? Ouvir de um tanto de gente que eu respeito que eu estava saindo antes do tempo tampouco ajudava. Aos quase 40 anos, a hora era de tocar a barca: rumo à apoteose. Parar agora? E o que eu iria responder naquela festa ao fatídico “Oi, tudo bem, o que você faz?”. E seria possível retornar aonde havia chegado? O que fazer com o medo de se arrepender? Como me disse um amigo, vai com medo mesmo. E fui. Sem saber bem como seria o depois, pedi demissão. Como acabou vindo a coragem, vou contar. Falar de dúvidas que ainda seguem. Mas também de como é bom ter tempo para pensar nisso tudo. E além. Vem comigo.

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