“Seguindo o Universo” ou “Freud e o Inquietante”

Li, não me lembro onde, que certa vez Isaac Newton teria recebido a visita de um amigo em sua casa que teria ficado intrigado com uma ferradura de cavalo próxima à porta. Não resistindo à curiosidade, teria perguntado ao formulador lei da gravidade se ele de fato acreditava que o objeto traria boa sorte. Ao que o cientista teria respondido: “Claro que não. Mas ouvi dizer que funciona mesmo assim”.

Pesquisando um pouco, vi que a frase já foi atribuída a Bohr e a Einstein, entre outros, e que na verdade nem se sabe se ela realmente foi dita por qualquer um deles. Mesmo assim, a anedota tem seu apelo: até as mentes de mais aguçada razão não vão deixar de ter algum grau de superstição, ainda que em muitos casos façam de tudo para nela não acreditar.

Até as mentes de mais aguçada razão não vão deixar de ter algum grau de superstição, ainda que em muitos casos façam de tudo para nela não acreditar.

De qualquer forma, difícil negligenciar coincidências que se tornam recorrentes. Imagine o caso de um mesmo número que insiste em se repetir (o número do quarto do hotel é o mesmo da poltrona no cinema, que é também o preço do táxi de volta, por exemplo). Não será apenas notado. Provavelmente vai causar um certo estranhamento… Algo que Freud trata no ensaio “O inquietante”, de 1919 . Inquietante é a tradução para o português do original alemão unheimliche, que, pela Wikipedia, refere-se a algo que não é propriamente misterioso, mas “estranhamente familiar, suscitando uma sensação de angústia, confusão e estranhamento”.

Segundo Freud, entre as diversas origens desse estranhamento estaria a “onipotência dos pensamentos”, uma espécie de “supervalorização narcisista que uma pessoa teria de seus próprios processos mentais”. Em outras palavras, uma crença arcaica no poder mágico dos pensamentos, os quais seriam capazes de fazer com que desejos se realizassem. “Nós – ou nossos ancestrais primitivos – um dia acreditamos que essas possibilidades eram realidades, e estávamos convencidos de que elas realmente aconteciam. Hoje em dia, não mais temos tal crença, ultrapassamos esses modos de pensamento. […] Uma experiência misteriosamente inquietante [unheimliche] ocorre tanto quando complexos infantis que foram reprimidos são reavivados por alguma impressão, ou quando crenças primitivas que foram ultrapassadas parecem uma vez mais ser confirmadas”. Por exemplo: queria muito que chovesse para não ter que sair amanhã, e acordo com o barulho de um temporal. Algo lá no fundo parece querer me dizer que fui capaz de mudar o tempo.

Realmente, um pensamento assim parece um tanto exagerado nos dias de hoje. O avanço da ciência fez que os “pensamentos mágicos” parecessem algo meio ridículo. A ironia é que isso tenha ocorrido não sem a criação de pelo menos um substituto que também de certa forma exerce apelo ao narcisismo existente em cada um de nós. Diria ser algo como uma crença na “onipotência das ações”. Só aquilo pelo qual batalhei é passível de valorização? O que realizo com facilidade não é digno de reconhecimento?

Trabalhar é, de certa forma, pôr em prática algo que não aconteceria espontaneamente. Qualquer que seja o trabalho que realizemos, ele sempre “muda o mundo”, ainda que infinitesimalmente. Assim, é meio óbvio que quanto mais fizermos as coisas acontecerem de uma determinada maneira, que quanto mais “mudarmos o mundo”, mais seremos recompensados. Claro: mais valor terá sido criado quanto mais as coisas tenham ocorrido em dissonância de seu fluxo natural. Quem já carrega em si uma certa tendência à obsessão acaba recebendo um “reforço negativo”: promoções, salários maiores indicando que vale a pena agir de maneira obsessiva, tentar controlar tudo. E aí essa tal de “onipotência das ações” acaba virando um vício.

Quem já carrega em si uma certa tendência à obsessão acaba recebendo um “reforço negativo”: promoções, salários maiores indicando que vale a pena agir de maneira obsessiva, tentar controlar tudo.

Quanto maior o sucesso obtido no plano profissional, mais seremos tentados a acreditar que somos capazes e devemos fazer as coisas acontecerem de uma determinada maneira pré-concebida. Estaremos tentados a interferir em tudo com nossos atos. Em todos as demais esferas da vida. Recebemos todos os sinais de que nosso trabalho não é compatível com nossa vocação, mas movemos mundos e fundos para fazer dar certo. Treinamos na academia com uma lesão porque aguentar a dor parece mais importante do que abrir mão de um determinado objetivo – mesmo que esse objetivo tenha sido criado puramente por nós mesmos.

Parece esoterismo falar em “seguir o universo” – ainda que o universo, o cosmos, tenha sido o modelo de vida dentro da mitologia que originou a racionalidade ocidental, a grega. Mas não precisa ter nada de sobrenatural. Não é preciso nenhuma fé para se guiar por algo além da razão. Uma intuição de que algo “feels right” pode ser suficiente. Mudar de ideia. Seguindo a terminologia do próprio Freud, ir atrás do princípio do prazer. E não puramente da vontade cega de fazer. Uma queda d’água sempre encontra o caminho de menor resistência, até porque não quer desafiar as leis da física. Sem esforço.

Talvez por isso Newton tenha descoberto a lei da gravidade: por ter deixado abertos os canais de sua intuição! Teria algum valor toda a racionalidade da física newtoniana sem aquela sacada inicial da maçã?

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