“Ser humano e não um pássaro” ou “Rumo ao vento versão 2.0”

Primeira entrevista com um psicanalista. Sentam-se frente a frente. Trocam algumas amenidades e então vem a pergunta: o que o entrevistado esperava daquela análise?

Ele não queria que muita coisa mudasse não. Queria apenas ter um pouco mais de confiança de que um dia não iria se arrepender das decisões que vinha tomando.

Essa confiança pode existir?

Pode.

Mas seria realmente útil?

A vontade, na verdade, era a de aproveitar melhor as experiências que um nível mais elevado de liberdade pode proporcionar. As tais decisões que vinha tomando o levavam nessa direção. Pelo menos era o que sentia.

Quem quer liberdade quer experimentar, certo? Por que alguém gostaria de ter mais liberdade se não fosse para poder provar o diferente?

Mas e se o medo do arrependimento futuro fosse suficiente para prejudicar a fruição dessas novas vivências? De que valeria essa liberdade?

Nesse caso, não seria melhor voltar uns passos? Abdicar novamente da liberdade em nome do conforto. Em nome da segurança. Porém limitando, assim, a possibilidade de novas experiências. Aí o arrependimento futuro não passaria a ser pelas oportunidades perdidas?

Querer ter confiança hoje de que não haverá arrependimento amanhã… Não parece compatível com conquista de liberdade. Tem mais cara de apego ao conforto que apenas aparentemente tentou abandonar. Apego à impossibilidade de errar.

“Vá, e não tenha medo.” Mas nessa direção já tinha ido. É provavelmente onde estava: naquele lugar onde ficava sem receio.

Ou

“Fique, e não crie novos temores.” E morra de vontade de saber como teria sido.

A insatisfação superou o medo. Ele foi com medo. Mas FOI. E queria aproveitar o que viesse. Porque viver sem medo não existe. Então que pelo menos vivesse.

Ter a confiança de que não vai se arrepender é algo como uma antiexperimentação: só testar aquilo que vai dar certo. Ou só testar se for para dar certo. Não é testar. É repetir o comprovado.

Ele lembrou de sua decepção ao descobrir, quando era criança, que os pássaros normalmente seguiam as correntes de ar para efetuar seus deslocamentos. Legal mesmo seria ir de A até B apenas de acordo com sua vontade, teria pensado. Hoje, como gostaria de ir apenas passando de uma corrente a outra. O tal caminho do menor esforço.

E aí também pensou que, entre os economistas com quem trabalhara, não era difícil encontrar aqueles que viam os modelos estatísticos como o Santo Graal. “Encontre a formulação correta e seja capaz de efetuar previsões”. Ele sabia o absurdo disso. Prever com precisão o resultado da ação humana? Apenas sob a miopia de um racionalismo extremo que garantiria à matemática a chave para as verdades universais. Santo Graal: a essência humana. Deus.

Uma ilusão. Entre as diversas características que separam o ser humano dos outros animais está a sua capacidade de subjugar a natureza. De entender, prever e então controlar o ambiente. A capacidade de pensar o mundo além dos instintos da espécie para então modificá-lo. Dito de outra forma, compreender e agir sobre o entorno a partir da experiência pessoal e de acordo com as circunstâncias do momento. O que implica, obviamente, que cada indivíduo perceba o planeta a sua maneira a cada instante, e, como consequência, tome suas peculiares decisões sobre o melhor modo de atuar.

Um instinto de não agir apenas pelo instinto.

E é justamente essa singularidade que permite aos humanos prever e transformar o resto da natureza que vai acabar por fazer com que a ação humana seja apenas vagamente previsível e, portanto, incontrolável. Por poderem prever, tornam-se imprevisíveis. Tem toda uma literatura de economia austríaca sobre isso.

Trata-se de seres que, por termos consciência de que tudo sempre pode ser diferente, somos chamados humanos. Que, se presos a uma rotina, agimos contra o instinto de não agir de acordo com o instinto (e sim de acordo com a tal compulsão pela repetição, esse sim resíduo dos instintos animais que em nós ainda habitam… maldito Freud). Talvez por isso aspiremos pela liberdade. Aquilo que nos levou a ter o “poder de controlar” paradoxalmente levou ao desejo de “poder não controlar”.

Ele percebeu então que querer ter a confiança de que não iria se arrepender no futuro era querer ter a ilusão de controlar o imponderável. E reduzir a experiência humana.

Ele não tinha ideia de como ia ser o futuro. E se soubesse como seria, precisaria vivê-lo? Teria graça?

Sem saber o que virá, deixar de lado a obsessão pela ilusão de controle para apenas tentar perceber para onde sopram os ventos. Esquecer o tal conforto imaginário e fazer o que dá vontade. Se é o que dá vontade não tem como se arrepender. Por que viveríamos se não para satisfazer nossos desejos?

Em tempo: ao alçar voo, o pássaro provavelmente não pensa se vai cair. Sim, o pássaro pode voar. Mas apenas pode voar.

(Texto inspirado pela leitura de “Cartas a um Jovem Terapeuta”, de Contardo Calligaris)

Tags: , , , ,

6 thoughts on ““Ser humano e não um pássaro” ou “Rumo ao vento versão 2.0”

Deixe uma resposta