Só quero chocolate

Olhos focam a luz binária do Kindle. Que palavras alheias abrandem as que não me param de brotar. O cheiro do café passeia pela sala e quem sabe me tire um pouco de mim. Tudo para que o cérebro funcione em seu segundo plano. O inconsciente é que é feliz, porque trabalha sem perceber.

O inconsciente é que é feliz, porque trabalha sem perceber.

Mas a excitação da ideia que finalmente chega não dura mais do que o intervalo entre as chuvas de Amsterdam. O que já domina é a compulsão de saber o que os outros pensam a respeito. Talvez melhor não falar nada… Não é melhor amadurecê-la um pouco antes?

Saio perguntando. São meus amigos, quero compartilhar! Colecionar comentários positivos! Afinal a ideia me faz total sentido! Exceto por aquele um ponto, que obviamente alguém não falharia em mencionar…

Quero ganhar confiança de que o plano vale a pena! Quero? Então por que não me satisfaço com as persistentes impressões de apoio? Deixo que um comentário duvidoso anule dez positivos. Será que o que quero mesmo é confirmar que o esforço tende a ser infrutífero? Tentador. Porque aí não preciso nem tentar. Já pensou se não der certo? Melhor nem pensar.

São tantas idas e vindas que acaba ficando difícil lembrar o que havia de divertido naquele pensamento inicial. E acabo na inércia. Imóvel. Eu queria sair desse esquema no qual tudo tem cara de obrigação. Mas só se fosse para entrar noutro em que as coisas fizessem mais sentido. Difícil, com tanta autocrítica.

Aí vem o fantástico mundo do Facebook. Validação instantânea. E mensurável.

Há quem já tenha explorado bem o impacto da alternância das estações no sucesso de economias (Mark Spitznagel, em “The Dao of Capital”). Na linha da fábula da cigarra e da formiga, a infertilidade do inverno obrigaria a poupança no verão. Similar também à ideia de Yuval Harari em Sapiens, de que o cultivo do trigo ensinou à humanidade o conceito do tempo. Com a poupança, viabiliza-se o investimento. Passa-se a crer que o esforço de agora vale a pena, ainda que os frutos demorem a vir. Investimentos aumentam a produtividade. Consumir menos agora para consumir mais depois.

Por uma série de razões que merecem uma investigação mais detalhada do que o que vou propor aqui, essa visão de longo prazo vem cada vez mais saindo de moda. A reação à crise econômica global de 2008 deixa isso claro. Os juros nas maiores economias do mundo foram a zero, ou quase. O tempo perdeu seu valor. O retorno para quem decidir economizar é nenhum. “Não poupem, não vale a pena. Gastem”, é o que Bancos Centrais mundo afora estão dizendo. Instituições políticas que são, provavelmente apenas refletem os anseios das populações: cada vez mais ansiosas. É como se tivéssemos todos nos tornado aquelas crianças dos experimentos de economia comportamental que preferem um chocolate hoje a dez daqui a uma semana simplesmente porque o conceito de “daqui a uma semana” ainda lhes é por demais abstrato. Ninguém mais aguenta esperar.

É como se tivéssemos todos nos tornado aquelas crianças dos experimentos de economia comportamental que preferem um chocolate hoje a dez daqui a uma semana simplesmente porque o conceito de “daqui a uma semana” ainda lhes é por demais abstrato. Ninguém mais aguenta esperar.

O Facebook. Se eu acertar a imagem do meu post, ganho mais seguidores. Faz sentido, porque mais seguidores geram o barulho que atrai mais seguidores. Por que gastar horas lendo e relendo livros e editando um artigo quando escolher o melhor público alvo do meu anúncio pode trazer mais reações? (Inclusive de pessoas que nem têm ideia de que o tal artigo existe). O “like” vem agora.

Penso numa orquestra. Tem o solista ou o pianista, que todos querem ver. O maestro. Mas tem também aquele tocador de fagote sentado na quarta fileira. Que às vezes, ouvidos leigos, nem distingo se está tocando. Contudo, esse artista provavelmente estudou sei lá quantas mil horas para estar lá. Sem contar os tantos anos de vivência que precisa imprimir na música para se destacar. E provavelmente ninguém nunca saberá seu nome. E em muitos casos, não vai ganhar dinheiro. Fala-se da ausência de gênios na música clássica atual. Por causa do baixo retorno financeiro do gênero ou da ausência de paciência para tão longo prazo que um esforço desses leva para ser reconhecido? Na verdade, é meio que a mesma coisa. Teria Mozart composto tantas sinfonias se gastasse tempo impulsionando suas canções no Facebook e monitorando o resultado?

“Humano, demasiado humano”. É bem possível que você tenha chegado até esta linha (obrigado!) porque viu um link no Facebook. Sem esse site, provavelmente minha vida seria mais difícil. Discordo de quem o culpa de mazelas as mais diversas na sociedade. Sr. Zuckerberg nada fez além de perceber essa necessidade de reconhecimento em cada vez menores horizontes, criar uma forma de torná-la quantificável e encontrar uma forma de vendê-la (o tal impulso a publicações). O “like” é um tipo de reinvenção do dinheiro, que remunera até aquilo pelo que as pessoas não estão dispostas a pagar. É preciso sanidade para resistir ao curtoprazismo que acena a poucos cliques de distância. O chocolate é gostoso dentro da boca.

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