Sobre sombras e luzes

Inspirado por visita ao Pirelli Hangar, em Milão

 

E, de repente, ele estava lá dentro. No entanto, era só o nada o que enxergava. Breu completo. Escuro de uma maneira tal que não se distinguiam alto, baixo, lados. Como ele sabia então que estava dentro? Estranho era que havia pouco, o dia parecia tão claro. As dúvidas eram poucas, não incomodavam. Mas agora ele procurava frestas, uma luz qualquer que fosse capaz de identificar se aquilo era de fato um interior, mas não as encontrava. Apenas sentia, de todo aquele nada, sua vastidão… Como estar em algo que não acaba, sem nunca ter tido bem um começo. Sentia ou imaginava? Necessitava entender onde estava. Porém nada diziam seus sentidos.

Olhos acostumados, será que se o escuro, depois de ter sido assustador, eventualmente se tornar aconchegante, passará ao claro a função de amedrontar?

Provavelmente ajudaria se ele lembrasse como havia chegado ali. Mas o fato era que não guardava memória. Recordava apenas vagamente umas linhas de trem… Uns muros grafitados, talvez. Nada além de imagens desconexas. Naquele momento, só estava ali. Só. A escuridão era também imanente.

O que esperar quando as referências são nenhuma? A ausência de ação tem reação? Se o pensamento é tudo o que existe, algo existe? Por que pensar se não há o que sentir? Era como se tivesse entrado no mundo da vontade de alguém, mas de um alguém que não quisesse nada.

Pensar era o que podia fazer para reduzir sua angústia. Que concebesse qualquer coisa que explicasse o nada! Nem que uma ordem da ausência fosse. Que engendrasse um mundo de coisas que não existem e, portanto, não acontecem. Desejava apenas poder deixar de tentar prever eventos que não ocorreriam. E de fato nada mudava, conforme ele não mais esperava.

Fez-se a luz.

Poucas, fracas. Algumas a brilhar no meio daquele nada. As sombras da escuridão.

Seguia pensando. Que no mundo de claridade em que até havia pouco acreditava viver, bloquear a luz era fazer do invisível algo sensível aos olhos. Não era a sombra apenas a delimitação de uma ausência? Mãos habilidosas que se articulam na frente de chamas fazem do nada algo que se projeta sobre a parede branca. Realidade invertida nessa nova e trevosa conjuntura, em que o brilhos, os visíveis, tornavam-se apenas interrupções ao que seria não mais que um breu contínuo. A sombra era o que importava ali.

Ao que se iluminava deveria se dar menos atenção que ao contorno negro que as luzes possibilitavam. Era a imagem que funcionava por ser somente negação. Uma negação que de outra forma seria apenas um escuro indistinguível.

Que, naquela escuridão, se destacasse o que não fosse visível.

Importava ali era o avesso. A sombra em si. O que sua preocupação em existir sempre o impedira de ver. O que se escondia. Somente no conforto daquela escuridão ele poderia se acostumar com seu velado.

Ele conseguiria enfim ver o que sempre lhe fora secreto. Porque ali, o oculto era visível, mas sem ser mostrado. E aí não assustava.

Melhor seria se permanecesse escondido? Olhos acostumados, será que se o escuro, depois de ter sido assustador eventualmente se tornar aconchegante, passará ao claro a função de amedrontar?

Pensamentos mágicos ou não, mal ele se perguntou e o breu se tornou colorido. E sim, incomodou. Pelo menos no início. Nesse agora claro, ele se deu conta de que não estava sozinho, como chegara a imaginar. Justamente naquele instante em que seu oculto nunca havia estado tão visível… Havia outros. Figuras ainda opacas, verdade. Mas eram sem dúvida outras pessoas. Sombrias, não plenamente distinguíveis. Não fossem aquelas silhuetas todas, talvez ele logo tivesse percebido como eram lindas aquelas cores. Provavelmente fariam valer a pena a renúncia ao aconchego da escuridão.

Neons, em formas improváveis, em cores não menos implausíveis. Sim, ele definitivamente preferia a inconstância do que brilha ao eterno do que não se pode enxergar.

Pena ele não conseguir deixar de prestar atenção nas pessoas.

Nenhuma delas, por sua vez, parecia se incomodar com nada, meio-sombras-meio-luzes. Não é que tanta gente apenas lhe tirasse o foco. Eles o incomodavam. Ele queria aquelas cores todas só para si, como antes para si tivera todo o escuro. Aquelas outras sombras todas perambulando por ali o distraíam, e disso ele não gostava.

Pois para onde quer que olhasse, via alguém. Ainda que ninguém parecesse se importar com ele. Ainda que aqueles todos não fizessem com ele nenhum contato, atrapalhavam sua compreensão daquele espetáculo do qual agora queria fazer parte. Aquelas luzes eram especiais demais. Estranho que ele, que ainda não sabia bem porque estava ali, nem quanto tempo por lá ficaria, agora se achava o único a merecer ali estar.

E por que aquelas pessoas atrapalhavam tanto? Por que não incomodavam enquanto não eram visíveis? Elas nem poderiam roubar sua parte na contemplação das luzes. E a verdade é que elas pareciam mais preocupadas com outros universos, fora dali, olhando para suas pequenas luzinhas portáteis.

Por que ele não podia simplesmente aceitar aquela multidão? Aquelas vidas todas fora de seu controle. Sua própria vida estava em seu controle? Deveria estar? Por que essa dúvida de repente se tornara tão importante – a ponto de prejudicar a pura contemplação das luzes em franca exibição?

Por que ele queria estar ali?

Ali aonde ninguém chega.

Só ele chega.

Mas chega aonde?

E por quê?

Para quê?

Ele queria estar lá em cima.

Aonde ninguém chega.

Quem são todos esses?

Chegar ao topo. Ainda que o caminho seja espinhado. Ainda que sobrem alguns arames, aqueles fios de nossa vida que não se conectam aos demais. Aqueles que nos arranham vida afora. Mas que não impedem a construção de seguir.

Mesmo que ele estivesse lá em cima, ainda estaria lá dentro. Faria diferença?

Ele poderia tentar ficar lá em cima para sempre. Apenas ali. Ou optar pela saída. Onde haveria mais mundo.

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