Sublime e Assustador

É bem verdade que Caraíva já muito se diferencia daquela que primeiro conheci há uns 20 anos. Aquela em que não havia ruas, apenas umas casinhas espalhadas quase que a esmo. E essas casinhas ainda eram iguais às tais pintadas pela Duca. Não tinha energia, mas não fazia muita falta porque não precisávamos carregar celulares. As décadas passaram, terrenos ficaram escassos, a eletricidade veio e ouvi dizer que às vezes tem gente demais. Ainda assim, o vilarejo conservou aquilo que sempre me fez voltar, uma certa ancestralidade sua. Nada como Roma, em que a gente vê do presente o que foi o passado. Caraíva está mais para uma vivência de um tempo quando esse tempo é indeterminado.

Que ironia, nesse cosmo que um dia originou o conceito de perfeição, ter surgido a mente assim, falível. Se atrapalha toda ao cogitar o próprio pensamento. Essa obsessão por racionalizar. Como se toda exceção tivesse uma regra.

Tem um tal de viver o cosmo. Não só por conta da nitidez da via láctea. Mas também porque depois de tantas caminhadas de volta à casa ao longo do mar, nos acostumamos a vê-la indo do leste para o oeste, do mar ao rio. E tem a lua, cuja fase todos sabem precisar. Ninguém quer deixar de testemunhá-la cheia saindo do mar. Mas eu acho que senti mesmo que estava morando em Caraíva quando soube de cabeça o horário das marés, fator que define a mobilidade por aqui. Parece tautologia, mas a física só poderia mesmo ter sido inventada num lugar onde não existisse civilização. Nem seus compromissos. E num período anterior à criação do diabo, quando ter a cabeça vazia ainda era uma virtude. O que seria da física sem o tempo e o dom de observar?

E tem também o microcosmo. A ausência de carros, a tranquilidade perene, o pé na areia… tudo isso me grita infância. Talvez porque a minha tenha sido em grande medida próxima do mar. Mas há também um caráter meio utópico, que talvez permita a universalização desse grito. Um lugar onde todos conhecem todos, e se divirtam nos mesmos lugares e talvez por isso sejam tão gentis e confiem uns nos outros e tenham tão pouco a se preocupar com os riscos do mundo real. Uma escassez de medo, uma gama limitada de opções que inevitavelmente leva a uma rotina mais ou menos previsível. Veste-se muito pouco para se preocupar com o que vestir. Com o conforto de um sol constantemente refrescado pela brisa, de um mar quase morno. Essa simplicidade toda na vida não exclamaria infância para qualquer um? Quem dera a mim me contassem.

Sob a lembrança constante de que o universo inteiro existe, pensamos menos no tempo para mais experimentá-lo. Não é isso que crianças fazem? E tudo fica tão grande. Tão simultaneamente sublime e assustador. Sublime como uma vida em que pouco pode dar errado. Como os movimentos celestes, sempre lá, indefectíveis. Como naquela época em que ainda sentíamos estar sempre sendo cuidados, porque o que todos queriam é que apenas fôssemos felizes. Assustador como naquelas vagas lembranças pueris, que às vezes a gente nem lembra, de que infelizmente havia o pouco que podia dar errado. E às vezes dava. O poço que seca, a água que falta. Os primeiros contatos com o incerto.

Que ironia, nesse cosmo que um dia originou o conceito de perfeição, ter surgido a mente assim, falível. Pensa com facilidade sobre aquilo que não tem vontade. Mas se atrapalha toda ao cogitar o próprio pensamento. Essa obsessão por racionalizar. Como se toda exceção tivesse uma regra.

Sem alternativa, no meio desse erro, crescemos.

Duas crianças, provavelmente irmãos, acabaram de se instalar na casa ao lado. Mal chegaram e já saíram a ampliar as memórias que colecionam. Pela primeira vez podem sair correndo livres de olhos vigilantes e molhar os pés no mar. Já do lilás do pôr-do-sol provavelmente não se darão conta, porque importante mesmo é o castelo que constroem. Uma pena que, talvez enquanto tomarem um sorvete mais tarde nesse dia, não poderão saber se havia ou não no ar certo desentendimento entre seus pais. Pode ser que sintam um frio na espinha dizendo-lhes que há algo errado, mas esse algo ficará velado por conta do zelo dos adultos que os amam. Bem naquele momento em que tudo deveria ser apenas sublime. A noite tão escura e o barulho do vento nos coqueiros embalam ou embargam o sono?

Será que depois da praia queremos todas as possibilidades da cidade para tentar corrigir aquilo – que não temos a mínima ideia do que seja – que deu errado?

E assim nos afastamos dos movimentos cósmicos que nos lembrariam quão pouco é o que controlamos.

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4 thoughts on “Sublime e Assustador

  • Belíssimo escrito, Denis. Li com gosto.

    A certa altura o texto me lembrou um trecho de “Aniversário”, de Fernando Pessoa:

    “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
    Eu era feliz e ninguém estava morto.
    Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
    E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

    No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
    Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
    De ser inteligente para entre a família,
    E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
    Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
    Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.”

    Queria ressaltar algumas partes especialmente marcantes para mim:

    “Pode ser que sintam um frio na espinha dizendo-lhes que há algo errado, mas esse algo ficará velado por conta do zelo dos adultos que os amam’. (a percepção inconsciente das crianças)

    “Que ironia, nesse cosmo que um dia originou o conceito de perfeição, ter surgido a mente assim, falível. Pensa com facilidade sobre aquilo que não tem vontade. Mas se atrapalha toda ao cogitar o próprio pensamento…”
    (é mais fácil aplicar o raciocínio lógico e objetivo às coisas da natureza do que para dentro de nós, onde imperam as emoções envernizadas de conhecimento intelectual).

    “A noite tão escura e o barulho do vento nos coqueiros embalam ou embargam o sono?”
    (poesia pura!)

    “E assim nos afastamos dos movimentos cósmicos que nos lembrariam quão pouco é o que controlamos.”

    (a ideia de controle aplica-se onde se identificam com clareza variáveis de causa e efeito que podem ser quantificadas.
    Não é o caso na mente humana; ali o controle não é possível; tentar instaurá-lo leva a uma ditadura e repressão cujo efeito é ainda pior)

    Parabéns, Denis.

    Em tempo, tenho um artigo na internet e gostaria de sua opinião.
    http://www.desenredo.com.br/O%20dragao.htm

    J.C. Cavalcanti – amigo do Leandro

    • Olá Cavalcanti!
      Estou sem palavras frente a esse belo comentário. Te fazer pensar em Pessoa já seria elogio suficiente, mas aí vc vem com essa bela sensibilidade apontar como o texto mexeu com vc! É muita alegria para quem escreve!
      O Leandro fala muito de vc. A partir da semana que vem estarei em SP, quem sabe a gente não toma um café? Indo agora para teu texto!!!
      Um abraço!

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