Tempo é tudo que preciso

Quando não se tem tempo para nada, não se tem tempo para refletir. Pode ser que até sintamos um certo descontentamento, dizendo que se deveria estar num lugar onde não se está, ou fazendo algo diferente do que se faz. Entretanto, se existe uma lista interminável de coisas a serem feitas, o melhor é apenas seguir em frente. Keep walking? Pensar nos problemas fica para depois. Mais fácil sair correndo, fazendo coisas que nem um louco. Justamente para (tentar) acalmar esse pensamento que parece seguir insatisfeito independentemente do que se faça. Ou para tentar emplacar aquela ideia de que “pelo menos algo está sendo feito”. Parece mais simples do que tentar entender por que se quer fazer tanto. Sem perceber, todavia, que para cada nova ação realizada, novos pensamentos de que se deveria fazer ainda mais fatalmente surgem. Parece que fazer mais alimenta a insatisfação com o que se faz. E faz fazer mais. Até que esgota. Kaput.

Mesmo nos tempos de ócio: sentar no gramado do Vondelpark por um dia todo e curtir o raro sol de Amsterdam quando se tem o Rijksmuseum, o Stedelijk e o Foam para visitar? E a casa da Anne Frank? Melhor chegar cedo, porque a fila é enorme. Mesmo assim, a fila é enorme. Inclusive queria saber o que tem lá dentro que faz tanta gente ficar esperando horas para ver. Deve haver algo além da satisfação por sobreviver à fila. Talvez a vantagem de que a fila lembre algum tipo de obrigação, penalidade, que portanto faça com que o tempo ali gasto não seja questionado pela ansiedade, mesmo que não seja legal. Em duas semanas de férias, todo o tempo é pouco. É preciso aproveitar.

E a casa da Anne Frank? O que tem lá dentro que faz tanta gente ficar esperando horas para ver? Algo além da satisfação por sobreviver à fila? Talvez a vantagem de que a fila lembre algum tipo de obrigação que faça com que o tempo ali gasto não seja questionado pela ansiedade.

Fiz recentemente uma trilha que leva a uma daquelas praias escondidas deslumbrantes de Ibiza: Es Portixol. Caminha-se ao longo de um desfiladeiro, tendo de um lado a vegetação e do outro, o mar turquesa. A praia é uma pequena baía, praticamente deserta. Deve demorar uma meia hora só para contar os tons de azul da água. Mas naquele dia, estava difícil relaxar. Algo do tipo: curtir a paisagem e não pensar em nada. Viver o momento. Em tempos de falta de tempo, ficaria ainda mais difícil, porque haveria a tentação de visitar as outras 87 praias da ilha. Ou porque haveria a obrigação de estar bem. Afinal, são férias e a paisagem é incrível. Melhor era se obrigar a ser feliz e tudo resolvido. Mais fácil trabalhar com objetivos bem definidos.

Auto-hipocrisia. Só porque dá para ver o pé no fundo do mar tudo fica automaticamente bom? Se o ócio tem data próxima para acabar, quero crer que sim. Mas não. Ainda bem que tinha tempo: se aquela praia, naquele dia, não trouxe a tal paz de espírito, ela haveria de vir noutro dia, noutro lugar. Melhor aceitar a inquietude do que ficar ansioso porque não posso ficar ansioso.

Por definição, não se sabe o que ocorre no inconsciente. Mas uma paisagem ibicenca como aquela deve deixá-lo efervescente. Milhares de cores numa amplidão absurda, barulho do mar mexendo as pedras, cheiro das plantas. Para Aldous Huxley nenhum botar defeito: as portas da percepção vão à loucura. Vai saber os pensamentos ou emoções que podem ser ativados por tudo aquilo. É como se cada passo naquela trilha fizesse chacoalhar um baú esquecido na mente. Algumas coisas perdidas começam a aparecer, outras mudam de lugar.

Coisas perdidas talvez porque a falta de tempo no passado as impedira de serem refletidas. Coisas que foram soterradas pela pilha de tarefas a serem realizadas. Ou coisas nas quais se julgava melhor não mexer: antes um equilíbrio precário porém conhecido do que o risco de tropeçar naquilo que está perdido no escuro. O fato é que esse baú vai comigo aonde for. Melhor conhecer seu conteúdo. É bem provável que algo venha a ser útil. Ou que possa ser descartado. Mas não ignorado.

Antes um equilíbrio precário porém conhecido do que o risco de tropeçar naquilo que está perdido no escuro?

Pode parecer demais enfadonho ter que fazer a faxina bem quando se quer ir à praia. Mas às vezes tudo o que a mente quer é ser ouvida: deixar a tal imaginação passiva fluir me parece o melhor remédio contra esse impulso de fazer diversas coisas ao mesmo tempo. E não soterrar a ansiedade com mais ações. Para responder ao que afinal quer a minha mente, preciso deixá-la responder. Para isso é bom ter tempo.

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