Três comentários sobre o efêmero

A fanfarra dos deuses. Mais uma vez a sabedoria dos mitos gregos. Lendo o livro do Luc Ferry, fiquei intrigado com o papel dos heróis naquela mitologia. Pelo que entendi, esses semideuses precisam destruir todas as forças que possam se opor ao equilíbrio cósmico. É necessário manter a harmonia entre a vida e o inanimado, entre a eternidade divina e o tempo caótico. Na ausência da vida – da impermanência – não há porque haver o tempo. Apenas o tédio por toda a eternidade. Por outro lado, o caos desenfreado, apenas a incessante mutação, levaria à total destruição do cosmos.

Esse cosmo cheio de vida só foi criado para diversão dos deuses. Sem os humanos, ou a vida em geral, os olímpicos ficariam entediados em sua imutável eternidade. Os deuses estão apenas brincando conosco.

Perseu precisa matar a Medusa porque seu olhar petrificante pode potencialmente acabar com tudo que é vida. Hércules precisou limpar os estábulos do rei Augias porque sua sujeira poderia ter tornado infértil toda a região. Teseu precisa acabar com uma série de monstruosidades até chegar ao Minotauro.

No fundo, é a missão de qualquer trabalhador: criar ordem no caos. Fazer com que algo que naturalmente não aconteceria aconteça. Mas por que os deuses, todo-poderosos, capazes de criar toda uma ordem cósmica, não acabam eles mesmos com essas forças caóticas? Por que não matam eles próprios a Medusa, por exemplo?

Porque apesar de imortais, os deuses também podem ser petrificados. E aí seria para toda a eternidade. O mortal (ainda que um semideus) vai ficar ali paradão só até morrer. Ademais, a perda de um deus que é/controla forças da natureza é muito mais danosa para o equilíbrio cósmico do que a de um humano, que já ia morrer mesmo.

Os deuses preferem, portanto, ter filhos e mandarem-nos cumprir as tarefas. E até os ajudam. Mas aí voltamos ao ponto de que esse cosmo cheio de vida só foi criado para diversão dos deuses. Sem os humanos, ou a vida em geral, os olímpicos ficariam entediados em sua imutável eternidade. Os deuses estão apenas brincando conosco. Mesmo (principalmente) com os heróis. Melhor não se levar tão a sério.

***

Não que seja tarefa simples, essa de não se levar tão a sério. A gente tá ali se esforçando para ser só mais um e… bang! Bate aquela impossibilidade de se atingir o inalcançável. E a gente se pega querendo mais, e mais… Mais o quê? Dinheiro? Diversão?

Sério?

Infalibilidade talvez, só se for. Completude, whatever that means. Ser completo é ambição demais.

Tenho este projeto, e também esse outro. E aquele ainda. Ovos em várias cestas. Nos vários, um há de me justificar. Mas um deles não vai bem. Esse, gesticulo com a mão esquerda, teve um contratempo. Agora este outro também não vai às mil maravilhas, aponto com a mão direita.

As mãos que tentam mudar o mundo, para me proteger. E eu, bem no meio delas. Isso não vai mudar. Mas nenhum dos projetos correu bem.

Foi um dia ruim. Mas apenas um dia ruim.

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Vai, Eleutério! Numa tarde destas quaisquer, Eleutério assistiu a “Fala Comigo”, de Felipe Sholl, num daqueles cinemas da Augusta, e lembrou que todos vamos morrer. Mas também de como é bom viver sem lembrar disso de vez em quando.

O conforto e a liberdade. A escolha será sempre conflitiva? Filosofou.

Ele queria saber se os casais que decidem ficar juntos para sempre temem menos a morte. Ou sentem mais da morte em vida?

Quando voltava caminhando, sorriu ao ver um menina que tanto se divertia com o barulho que sua mochila fazia ao ser arrastada. Será que ele sorriria se não tivesse consciência de sua finitude? Ele nunca vai saber.

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