Um dia

Seis horas da manhã. O céu já em todo seu azul. Palmeiras se espreguiçando com a brisa que vem recém chegando do mar.

Uns cômodos para varrer, uns móveis mudados de lugar. Leitura despretensiosa na rede, uns “bom-dias” trocados com vizinhos.

Hora sair. Aula de yoga. Caminho ao largo dos ondas. Crianças correndo. Um siri branquinho que sabe exatamente onde ficar para que a onda o refresque, porém sem cobrir seus olhos.

A barra, ponte de areia para o rio que se vê do mar. Uma choupana serve de sangha.

Três moças e eu. Formamos um círculo quadrado, olhos nos olhos. Saudações ao sol. Contato. Alongamentos assistidos, alongamentos assistentes, comunidade. Unidade. Ancestralidade. Que nos estiremos e assim tiremos essa dor que vem de muito antes de a gente imaginar que existiria. Lágrimas. Flexibilizar-se. Mantras. Savasana. Ah, a beleza libertadora do savasana. Poder fazer o não-fazer.

Café-da-manhã. Velhas amigas. Sabores antigos. Duca e Lua. “Sublime e assustador”, filho meu, legível de uma das mesas. Aquela em que muito já sentei. Um poema sobre a grandeza de Caraíva, doado a Caraíva, para quem lá for. Sabe aquele conforto que a gente sente quando sabe que valeu a pena? Então.

Caminho de volta. Quase ninguém. A moça da feira tinha sentido saudades. Eu também. Legumes novos, pra fazer receitas novas, que ela ensina enquanto descasca a abóbora e pica o mamão verde. Esse prepara que nem macarrão. Fica uma delícia, quero confirmar.

E o outro amigo mostra como está ficando linda a casa amarela que constrói. Vista para os coqueiros que avistam o mar.

Familiaridade. Segurança. Firmeza.

Filosofia, a doce filosofia. Me salva.

Ver filme ou ir à vila comer cocada?

Noite clara, lua quase cheia. Só as gotas mais densas dessa nossa via láctea se fazem visíveis.

A física é a mesma em todo o universo, ouvi dizer. Mas parece bem mais colocada a prova em nosso planetinha. No restante do universo, os astros apenas vão seguindo, século após séculos, suas eternas translações. Poderiam percorrer todo o cosmo, mas se contentam com as longas voltas que lhes foram atribuídas. Já aqui embaixo, quantas vezes o Waze recalcula a rota só para ir até ali do lado? Delícia deve ser estar numa uma nave espacial, apenas voando naquela sua inabalável trajetória sideral. Mas que teve que ser criada em terra, diga-se de passagem.

Mar prateado. Sentado na areia, escrevendo essa visão.

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