Vai passar, vai voltar

É aquela coisa de levantar no domingo, botar um Chick Corea para tocar e sentir: está tudo dando certo. Se precisar, a gente pode até pensar que foi porque trabalhou demais para isso. Mas melhor se não.

Tem horas que a terapia parece que trava. Psicanálise. Fica a inquietação, que no seu durante, sente como eterna. Como lembrar que vai passar? Mas passa. E então passa.

Só que em alguns casos passa do ponto. É quando não se cabe em si. E aí, igualmente se esquece que vai voltar. Ela, a inquietação, que vai voltar. Esquecimento fatal.

Nem lagarta, nem borboleta. Às vezes, bom mesmo é ficar no casulo, só metamorfoseando.

Ficar no lado ruim da história a gente sabe que é ruim. Faz todo esforço para acabar. Quer que vá. Agora na euforia… Aí sim: que nunca se lembre que a ansiedade pode voltar. Que vai voltar. Que bom seria morar com a euforia. Mas ela é aquela pessoa incrível que você encontra no bar. Cujo sorriso te faz sentir imbatível, mas no dia seguinte você acorda e ela se foi. Quanto mais linda a euforia, maior a ressaca. Vai passar, vai voltar. Felizmente tem o meio no meio. Nem lagarta, nem borboleta. Às vezes, bom mesmo é ficar no casulo, só metamorfoseando.

Analisar-se. Ir soltando as correntes. A sensação de liberdade vai aumentando. Cada vez mais, até que tropeça num desses ideais. Qualquer dessas idealizações que a gente vai colecionando na vida. Um projeto não fulminante, um jantar à meia-luz escurecido pelo silêncio, chuva na praia. Tropeça porque ainda não há muito conforto com esse jeito propriamente seu de ser. Ainda é fácil achar que se é muito menos do que poderia ser quando se idealiza. Contentamento não basta – bom mesmo é euforia! Escorrega do neutro. E parece que o esforço analítico não serviu para nada. Ou que atrapalhou. Porque nesse tempo todo gasto tentando ser quem se é, poderia ter caminhado em direção ao ideal. A gente bem sabe que essa estrada de tijolos dourados não serviria para nada. Mas às vezes esquece.

Ocasionalmente ia ensaiando pegar mais leve no trabalho. Deixar a tarde de sexta-feira livre para algumas leituras não tão ligadas a economia. Arejar um pouco a mente, tentar desanuviar para as novas ideias aparecerem. Sim, vinha me convencendo de que valia a pena gastar tempo sem saber para que, ser ineficiente, em prol de gerar algo mais interessante (ou que pelo menos me deixasse mais interessado). Mas aí vem uma ligação do chefe do chefe com uma pergunta escabrosa que obviamente não tinha como responder. Culpa. Nunca deveria ter perdido o foco. Para as corporações, neurose é ouro.

Acho que a virada é quando essa culpa começa a virar indignação. Aquela pergunta não tem resposta. E se tem, não precisa ser agora. Mas as perguntas esdrúxulas, ou equivalentes bizarrias do criativo mundo corporativo, não param de chegar só por que percebemos que elas são inadequadas. Por outro lado, o lado bom, chegava também o sentimento de que fazer as coisas do meu jeito também funcionava. A resultante era a percepção, incômoda, porém real, da discrepância entre o jeito que eu queria trabalhar frente ao que tinha que fazer.

Não é de dentro do olho do furacão que a gente vai conseguir saber como se sente fora dele. Mal dá para ver o que tem do outro lado.

Dentro da estrutura, os riscos são menores (ou pelo menos mais conhecidos). Ao custo de menor flexibilidade. Mas com maior flexibilidade as coisas parecem funcionar melhor. Antes, era angústia por não atingir o ideal e as obsessivas tentativas de chegar lá. Depois, percepção ampliada, foi se transformando em desconforto por representar distanciamento do que teria significado para mim.

Mas ainda não havia tempo para pensar o que exatamente faz sentido. É pedir demais continuar entregando resultado, lidar com esse desconforto e ainda se cobrar a descoberta do tal sentido ao mesmo tempo. Não é de dentro do olho do furacão que a gente vai conseguir saber como se sente fora dele. Mal dá para ver o que tem do outro lado.

Eu não conseguiria pensar no que viria depois da saída do mercado financeiro estando dentro dele. Precisava expandir o conceito da “leitura de sexta” para um período bem maior, antes de mais nada. Eu preferi primeiro só ter tempo, e confiar que o sentido viria depois. E veio. Ainda vem.

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